Com a proximidade do Dia da Mata Atlântica (27/05), dados apontam para um desafio crítico na proteção do bioma: o Brasil tem recuperado sua cobertura vegetal em larga escala, mas enfrenta altas taxas de supressão de florestas jovens antes que atinjam a maturidade. A interrupção desse ciclo de crescimento afeta diretamente a infraestrutura natural, impactando a regulação climática, a produtividade agrícola e o custo de vida nas cidades.
Concentrando 80% do PIB nacional e abrigando 72% da população do país, a Mata Atlântica possui hoje cerca de 12,4% de florestas maduras e bem preservadas (segundo levantamentos do MapBiomas, INPE e Fundação SOS Mata Atlântica). A manutenção das novas áreas em recuperação é estratégica para sustentar os serviços ambientais urbanos e essencial para que o Brasil avance em compromissos climáticos, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG), que estabelece a meta de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa em todo o país até 2030.
Números recentes:
- O estudo "O retorno das florestas", que reuniu 16 pesquisadores de 14 instituições sob a coordenação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica e com a participação da TNC Brasil, aponta que 1,67 milhão de hectares de vegetação nativa foram recuperados entre 2011 e 2021, com 75% desse total ocorrendo por meio de regeneração natural. As áreas que mais concentram essa recuperação são os estados de Minas Gerais (26,4%), Paraná (18,6%), Bahia (12,9%) e São Paulo (12,7%).
- O levantamento identifica, no entanto, que 568 mil hectares dessas novas florestas não sobreviveram até 2023. O dado representa uma supressão média de quase 50 mil hectares por ano de vegetação que não atingiu a maturidade necessária para consolidar seus serviços ambientais.
O DESAFIO DA RESTAURAÇÃO CONTÍNUA E AS SOLUÇÕES ECONÔMICAS:
As florestas em estágios iniciais de regeneração enfrentam vulnerabilidades. A Lei da Mata Atlântica protege rigorosamente as áreas maduras, mas a supressão da vegetação jovem ainda é permitida sob critérios técnicos específicos. Diante dessa realidade, a conservação concorre diretamente com o uso do solo para pastagens ou lavouras, o que dificulta a conectividade da paisagem florestal.
Para incentivar a manutenção dessas novas florestas e torná-las mais atrativas ao produtor rural, é essencial o avanço de mecanismos financeiros que transformem a preservação em renda contínua.
A eficácia desse modelo é atestada por iniciativas consolidadas em toda a Mata Atlântica, como o projeto pioneiro Conservador de Águas (MG), que demonstra como a floresta em pé passa pode se tornar um ativo econômico de longo prazo para o produtor, ao remunerá-lo por proteger nascentes, contribuindo para a manutenção dos recursos hídricos, da biodiversidade e a proteção de áreas ambientalmente sensíveis. O mercado voluntário de carbono também vem desempenhando um papel relevante na atração de capital privado para o campo: projetos estruturados na Mata Atlântica já direcionaram mais de R$ 1,3 milhão em pagamentos diretos para cerca de 150 proprietários rurais, viabilizando a restauração de aproximadamente 3 mil hectares.
Para que esses modelos possam ganhar escala em todos os 17 estados do bioma, o mapeamento sistemático e a troca estruturada de informações são estratégicos. É com esse objetivo que atua a Rede Observatório de PSA, uma plataforma focada em dar visibilidade aos marcos legais e às boas práticas já existentes no país. Ao promover a conexão direta e transparente entre produtores, poder público e investidores, a ferramenta contribui para facilitar a atração e alocação eficiente de recursos essenciais para expandir iniciativas de restauração e apoiar no cumprimento das metas climáticas assumidas pelo Brasil.
OS REFLEXOS PARA O CONSUMIDOR:
Qualidade do solo e produção agrícola: a supressão da cobertura vegetal jovem acelera a degradação do solo e a perda de nutrientes. Sem a proteção natural e a regulação do microclima fornecida pelas árvores, a produtividade agrícola nas áreas vizinhas diminui, o que resulta em instabilidade nas safras e aumento no preço final dos alimentos que chegam às feiras e supermercados.
Regulação climática e recursos hídricos: a vegetação atua como infraestrutura básica para a captura de carbono e a manutenção do ciclo hidrológico. A perda precoce dessas florestas compromete o isolamento térmico, agravando os efeitos das ondas de calor nas áreas urbanas, e prejudica a capacidade de infiltração da água no solo, reduzindo a resiliência das bacias hidrográficas que abastecem as cidades.
FONTES E PERSONAGENS:
Rubens Benini: Líder da estratégia de restauração florestal na The Nature Conservancy (TNC Brasil) para a América Latina e membro da Coordenação do Pacto pela Restauração da Mata Atlântica. Engenheiro florestal (ESALQ/USP) e Mestre em Engenharia Ambiental (USP), atua há mais de 20 anos com restauração florestal.
Disponibilizamos contatos para gravações in loco, com proprietários rurais que aliam as áreas produtivas com a regeneração da floresta e atestam os benefícios econômicos e climáticos da manutenção da vegetação nativa.
