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Saúde mental exige novos caminhos entre o consultório e a internação
Modelos de cuidado intensivo intermediário surgem como alternativa terapêutica para pacientes com sofrimento psíquico moderado e grave
Publicado em 27/05/2026 14:30
Notícias Gerais

A imagem que muitas pessoas ainda têm do tratamento psiquiátrico costuma oscilar entre dois extremos: consultas periódicas para controle dos sintomas ou a internação integral em momentos de crise. Na prática, porém, especialistas em saúde mental têm defendido a importância de modelos terapêuticos intermediários, capazes de oferecer cuidado intensivo sem afastar completamente o paciente da convivência familiar e social.
 

O cenário acompanha um aumento consistente do sofrimento psíquico no país. Enquanto os afastamentos do trabalho por ansiedade e depressão atingiram recorde no Brasil em 2024 e seguem crescendo, dados do Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que Belo Horizonte figura entre as capitais com maior prevalência de diagnóstico de depressão autorreferida. Para especialistas, o cenário reforça a necessidade de ampliar o entendimento sobre diferentes níveis de assistência em saúde mental.
 

Ao mesmo tempo em que cresce a conscientização sobre a importância do cuidado emocional, especialistas observam um desafio importante. Muitos pacientes não conseguem manter a rotina e a estabilidade necessárias para seguir apenas com o tratamento ambulatorial tradicional, mas também não apresentam um quadro que justifique a internação psiquiátrica integral. É justamente nesse espaço intermediário que modelos de cuidado intensivo, realizados de forma estruturada e multidisciplinar, vêm ganhando relevância. 

Para o psiquiatra Dr. Glauco Araújo, diretor técnico da ViV Saúde Mental e Emocional em Minas Gerais, ainda existe um entendimento limitado sobre as possibilidades terapêuticas disponíveis entre as consultas periódicas e a hospitalização. “Há uma parcela importante de pacientes que sofre impacto significativo na funcionalidade, nas relações familiares, no desempenho profissional e na capacidade de autocuidado, mas que não necessariamente precisa ser retirada completamente do convívio social. Em muitos casos, um cuidado intensivo, com acompanhamento multiprofissional e intervenções frequentes, pode oferecer melhores resultados clínicos e emocionais”, explica. 

O modelo, conhecido como hospital-dia ou cuidado intensivo intermediário, propõe uma rotina terapêutica mais ampla, com acompanhamento psiquiátrico, psicológico, atividades terapêuticas em grupo, suporte ocupacional, psicoeducação e integração com a família, permitindo que o paciente permaneça conectado à sua vida cotidiana enquanto recebe assistência especializada ao longo do dia.

Um dos exemplos desse formato é o Leviva, modelo desenvolvido pela ViV Saúde Mental e Emocional para oferecer cuidado intensivo diário voltado a pacientes que necessitam de acompanhamento mais próximo, sem indicação de internação integral. A proposta também inclui intervenções multidisciplinares e atividades terapêuticas voltadas à reabilitação psicossocial, buscando promover maior autonomia e reinserção gradual do paciente em suas relações sociais e profissionais. 

Segundo Dr. Araújo, a proposta busca justamente reduzir rupturas bruscas na vida do paciente, um dos fatores que podem dificultar o processo de recuperação em alguns casos. Diferentemente de uma internação integral, o cuidado intensivo intermediário permite que o paciente participe ativamente das atividades terapêuticas ao longo do dia e retorne para casa posteriormente, preservando vínculos familiares e sociais considerados importantes para a evolução clínica. “Quando o indivíduo consegue manter vínculos afetivos, certa autonomia e parte da sua rotina, o tratamento tende a ser mais aderente e menos traumático. Além disso, a família participa mais ativamente do processo terapêutico, o que também contribui para uma evolução mais consistente”, afirma.

O especialista ressalta que esse tipo de abordagem pode ser indicado em diferentes situações, como episódios depressivos moderados a graves, transtornos de ansiedade incapacitantes, crises emocionais recorrentes, transtornos alimentares, dependência química e quadros psiquiátricos que exigem observação clínica mais próxima, sem necessidade de internação integral. “Existe uma visão equivocada de que o cuidado em saúde mental se resume a duas possibilidades: consultas espaçadas ou internação. Hoje sabemos que existem diferentes níveis de assistência e que a personalização do tratamento faz diferença nos resultados. O acompanhamento intensivo intermediário oferece uma abordagem mais humanizada e proporcional à necessidade de cada paciente”, pontua.

Outro aspecto destacado pelos especialistas é o impacto positivo para as famílias. Em muitos casos, parentes e cuidadores enfrentam sobrecarga emocional diante do agravamento dos sintomas e da dificuldade em lidar sozinhos com crises, alterações comportamentais e riscos associados ao adoecimento mental. “O sofrimento psíquico não afeta apenas o paciente. Toda a dinâmica familiar acaba atravessada pela doença. Quando existe uma estrutura de cuidado mais robusta, a família também recebe acolhimento, orientação e suporte para compreender melhor o processo terapêutico”, explica o médico.
A ampliação desse debate acontece em um momento em que o Brasil segue entre os países com maiores índices de ansiedade no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), enquanto especialistas observam aumento na procura por atendimento psiquiátrico e psicológico após a pandemia, especialmente em quadros relacionados à ansiedade, depressão, burnout e sofrimento emocional persistente.
Para o especialista da ViV, discutir modelos intermediários de assistência também ajuda a reduzir estigmas históricos associados ao tratamento psiquiátrico. “Muitas pessoas ainda têm medo de buscar ajuda porque associam o tratamento em saúde mental à ideia de isolamento ou perda de autonomia. Mostrar que existem formatos terapêuticos mais flexíveis, integrados e centrados na reabilitação psicossocial é fundamental para ampliar o acesso ao cuidado”, finaliza.

 

Imagem: Divulgação
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