O Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) fez um alerta sobre os riscos das novas tecnologias na reprodução de estereótipos de gênero e no agravamento da violência contra mulheres. Em uma nova orientação, divulgada em 28 de outubro de 2026, o órgão defende que os países adotem medidas concretas para combater preconceitos e desigualdades que persistem na sociedade e podem ser ampliados pela inteligência artificial (IA).
Entre as principais preocupações estão o uso da IA generativa e de sistemas autônomos para produzir imagens e vídeos sexualizados sem consentimento, criar conteúdos falsos, praticar extorsão sexual e promover ataques contra mulheres em posições de liderança. O Comitê destaca a necessidade de regulamentar as plataformas digitais e estabelecer mecanismos acessíveis para denunciar e remover conteúdos abusivos e discriminatórios.
A entidade também defende transparência, supervisão independente e revisão humana de decisões apoiadas por sistemas de inteligência artificial, especialmente em áreas como educação, saúde e Justiça. Segundo a orientação, preconceitos presentes em instituições judiciais podem comprometer a avaliação dos depoimentos de mulheres, influenciar decisões e até contribuir para erros judiciais.
O documento recomenda a revisão de leis e práticas que tratam a violência de gênero como um assunto exclusivamente privado ou familiar, além de medidas para responsabilizar autoridades que reproduzam estereótipos discriminatórios. Decisões judiciais marcadas por preconceitos também devem ser passíveis de revisão.
A desigualdade de gênero, segundo o Comitê, manifesta-se ainda na distribuição das responsabilidades domésticas e dos cuidados familiares. Por isso, a entidade defende uma divisão mais equilibrada do trabalho não remunerado e a adoção de políticas de licença parental. Conflitos, desastres climáticos e crises humanitárias também podem intensificar a sobrecarga das mulheres e aumentar sua exposição à violência.
Na área da saúde, o CEDAW alerta que preconceitos podem afetar diagnósticos e decisões relacionadas à saúde reprodutiva. Entre as medidas recomendadas estão a garantia do consentimento informado antes de procedimentos médicos, o combate à violência obstétrica e a descriminalização do aborto.
O Comitê ressalta que enfrentar os estereótipos de gênero exige mais do que combater manifestações isoladas de discriminação. É necessário transformar atitudes, sistemas e estruturas que perpetuam desigualdades. Nesse contexto, a regulamentação responsável da inteligência artificial e a proteção dos direitos das mulheres são fundamentais para impedir que os avanços tecnológicos reproduzam formas antigas de preconceito e criem novas possibilidades de violência.
