Mais de mil pessoas morreram entre julho e setembro, enquanto o número de deslocados internos se aproxima de 1,5 milhão. A ONU defende o reforço das ações de segurança e da assistência internacional para restabelecer a estabilidade no país caribenho.
A crise no Haiti continua a exigir atenção prioritária e uma resposta coordenada da comunidade internacional, segundo as Nações Unidas. O agravamento da violência armada e o avanço territorial das gangues foram os principais temas de uma reunião realizada nesta segunda-feira entre representantes dos Estados-membros do Conselho de Segurança e lideranças da organização.
Durante o encontro, o representante especial do secretário-geral da ONU no Haiti, Carlos Ruiz Massieu, destacou a deterioração da segurança, a expansão da atuação de grupos criminosos e o aprofundamento da crise humanitária, que afeta milhões de pessoas no país.
Violência armada desafia autoridades
De acordo com o enviado, as gangues continuam a desafiar a autoridade do Estado e a cometer atos de extrema violência contra a população. A insegurança persiste apesar das operações intensificadas das forças nacionais de segurança e do reforço da Força de Supressão de Gangues (GSF), que atua na região metropolitana de Porto Príncipe e no departamento de Artibonite.
Liderada pelo Quênia, a força internacional conta com mais de 2 mil integrantes de seis países. O contingente, porém, representa pouco mais de um terço do efetivo autorizado pela ONU. A operação também enfrenta dificuldades logísticas relacionadas ao transporte de equipamentos e ao acesso a recursos de inteligência.
Os grupos criminosos têm demonstrado capacidade de adaptação, utilizando represálias contra comunidades, sequestros e ameaças para manter o domínio territorial e intimidar moradores.
Os ataques indiscriminados em Kenscoff, que motivaram uma reunião de emergência do Conselho de Segurança, assim como os episódios de violência registrados posteriormente em áreas rurais, evidenciam a gravidade da situação e a ampliação geográfica da crise.
Quase 1,5 milhão de pessoas estão deslocadas
Entre julho e setembro, mais de mil pessoas foram mortas em decorrência da violência, incluindo mais de 650 integrantes de gangues. No mesmo período, mais de 100 pessoas foram sequestradas, enquanto a violência sexual e a atuação de grupos de autodefesa também despertam preocupação.
A nova onda de insegurança provocou o deslocamento de mais de 17 mil pessoas nos últimos três meses. Com isso, o número total de deslocados internos no Haiti chegou a quase 1,5 milhão, entre os quais mais de 740 mil crianças.
A crise de segurança agrava ainda mais a situação econômica. O país caminha para registrar sua sétima contração econômica consecutiva em 2026, ampliando a vulnerabilidade social e a demanda por assistência humanitária.
Segundo a ONU, os recursos disponíveis estão muito aquém das necessidades da população. O Plano de Resposta Humanitária para este ano recebeu menos da metade do financiamento necessário, o que ameaça ampliar a distância entre a demanda por ajuda e a capacidade de atendimento.
Diante desse cenário, a organização pede que os países mantenham o apoio político e financeiro ao Haiti e reforcem a solidariedade internacional para atender às necessidades mais urgentes.
Segurança deve ser acompanhada de recuperação institucional
Apesar dos desafios, a ONU aponta avanços, como o aumento dos recursos destinados pelo governo haitiano à Polícia Nacional e às Forças Armadas, além da ampliação das operações da Força de Supressão de Gangues, com apoio do Gabinete Integrado das Nações Unidas no Haiti.
A organização ressalta, contudo, que as operações de segurança, isoladamente, não serão suficientes para superar a crise. Uma resposta duradoura depende de uma estratégia abrangente, liderada pelos próprios haitianos, que combine a recuperação dos territórios dominados por grupos criminosos com a presença contínua do Estado.
Entre as medidas defendidas estão programas de desarmamento, desmobilização e reintegração, com atenção especial às crianças recrutadas por gangues, consideradas particularmente vulneráveis aos efeitos da violência.
O representante especial também apelou aos países para que mantenham o compromisso político e financeiro com o Haiti, incluindo contribuições ao Fundo Fiduciário da Força de Supressão de Gangues e ao Fundo de Dividendo de Paz para o Haiti.
Para as Nações Unidas, a superação da crise exige liderança nacional firme, apoio internacional contínuo e avanços concretos na reconstrução das instituições democráticas. O objetivo é restabelecer a segurança, ampliar a proteção da população e criar condições para a recuperação da estabilidade política, econômica e social do país.

