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Fim das bets traz esperança a dependentes
Plataformas clandestinas preocupam apostadores
Por Luciana de Oliveira Archete
Publicado em 15/10/2026 07:00
Notícias Gerais

Relatos reunidos pelo POPULAR mostram que a proibição das apostas on-line é vista como oportunidade para interromper o vício; usuários cobram fiscalização e acesso a tratamento para reconstruir a vida financeira e emocional

A proibição das apostas on-line no Brasil foi recebida com alívio por pessoas que enfrentam a dependência dos jogos de azar. Para muitos apostadores, a retirada das plataformas do ar representa uma oportunidade de interromper um ciclo de perdas financeiras, endividamento e sofrimento emocional. A esperança, porém, vem acompanhada de uma preocupação: a possibilidade de continuar jogando em sites clandestinos.

Em reportagem publicada em 12 de outubro, o jornal O Popular, de Goiânia, acompanhou durante uma semana grupos virtuais de apostadores e encontrou relatos de pessoas que comemoraram a entrada em vigor da Medida Provisória (MP) nº 1.394/2026, mas cobraram do governo medidas capazes de impedir o funcionamento de plataformas ilegais.

Editada em 25 de setembro, a medida proibiu em todo o território nacional a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos destinados à oferta dessas modalidades deveriam ficar indisponíveis.

Nos grupos monitorados pelo jornal, o dia da retirada das plataformas do ar foi marcado por intensa movimentação. Apostadores comemoraram a possibilidade de não conseguirem mais acessar os jogos, enquanto outros questionaram a eficácia da medida diante da permanência de sites estrangeiros e de operadores clandestinos.

A fiscalização é uma das principais cobranças dos participantes. Para pessoas que reconhecem ter perdido o controle sobre as apostas, a simples retirada das empresas legalizadas não resolve o problema se outras plataformas continuarem acessíveis.

Perdas que começam com pequenas apostas

Os relatos reunidos pelo jornal mostram uma trajetória recorrente: o início com valores baixos, a tentativa de recuperar o dinheiro perdido e o aumento progressivo das quantias apostadas.

Uma das entrevistadas, identificada pelo nome fictício de Elisa, moradora da Cidade Ocidental, no Entorno do Distrito Federal, contou que começou a jogar em 2022, com apostas de R$ 10 a R$ 30. Com o tempo, passou a fazer depósitos de centenas de reais e chegou a transferir R$ 1,4 mil de uma só vez para as plataformas.

Para continuar apostando, ela recorreu a empréstimos bancários e utilizou o limite do cartão de crédito. Segundo seu relato, parte do dinheiro recebido pelo trabalho com faxinas acabava sendo destinada aos jogos. Desde o início da prática, calcula ter perdido cerca de R$ 30 mil.

Outro entrevistado, identificado como Hélio, começou com apostas esportivas de pequenos valores, mas passou a recorrer a empréstimos para tentar recuperar o que havia perdido. Segundo a reportagem, os prejuízos ultrapassaram R$ 400 mil.

Em um episódio de recaída, depois de vender o carro e contrair novas dívidas, ele reuniu R$ 180 mil para tentar reorganizar a vida financeira. O dinheiro foi perdido em uma única manhã de apostas. O episódio foi seguido por uma grave crise de saúde, que exigiu internação em uma unidade de terapia intensiva.

Os casos mostram como o transtorno relacionado aos jogos pode ultrapassar o orçamento doméstico e atingir a saúde mental, os vínculos familiares e a vida profissional.

Bloqueio não substitui o tratamento

Apesar do alívio com a proibição, os próprios apostadores reconhecem que a dificuldade de parar não desaparece automaticamente quando uma plataforma deixa de funcionar.

Nos grupos acompanhados pelo O Popular, participantes relataram ter procurado sites estrangeiros depois do bloqueio das empresas que operavam legalmente. Outros defenderam que a responsabilidade de interromper o comportamento é individual, mesmo diante da facilidade de acesso a novas plataformas.

A situação evidencia o desafio de combinar fiscalização com assistência às pessoas afetadas. O bloqueio pode reduzir as oportunidades de apostar, mas não elimina necessariamente a vontade de jogar, a ansiedade ou a tentativa de recuperar prejuízos.

O governo federal informou, em 9 de outubro, que 16.627 sites ilegais de apostas e publicidade haviam sido identificados e encaminhados para bloqueio desde a publicação da MP. O número indica a dimensão do trabalho de fiscalização, mas não significa que todos os acessos clandestinos tenham sido definitivamente eliminados.

Onde buscar ajuda para abandonar as apostas

O tratamento da dependência não precisa começar apenas quando as dívidas se tornam insustentáveis. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento gratuito para pessoas que enfrentam problemas com jogos e apostas, além de acolhimento para familiares.

Uma das portas de entrada é a Unidade Básica de Saúde (UBS), onde a pessoa pode relatar suas dificuldades, receber avaliação inicial e obter orientação. Quando necessário, pode ser encaminhada a um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), que oferece acompanhamento especializado em saúde mental.

Também há atendimento remoto por meio do aplicativo Meu SUS Digital. Na seção “Miniapps”, o usuário pode procurar a opção relacionada a problemas com jogos de apostas, realizar um autoteste e acessar orientações para solicitar teleatendimento. O serviço é gratuito e sigiloso, e o acesso à assistência não depende obrigatoriamente da realização do questionário.

O acompanhamento pode envolver profissionais de diferentes áreas, com atendimentos individuais ou em grupo e, em alguns casos, uso de medicamentos, conforme avaliação clínica. Familiares também podem procurar orientação para lidar com os efeitos financeiros e emocionais do problema.

Entre os sinais que merecem atenção estão esconder gastos, mentir sobre as apostas, comprometer o salário ou as economias, tentar recuperar perdas jogando novamente e apresentar mudanças no sono, no humor ou nas relações pessoais.

A busca por ajuda profissional é importante porque a dependência não se resume à falta de disciplina ou de força de vontade. O cuidado deve considerar as condições emocionais e sociais de cada pessoa, além dos impactos financeiros provocados pelo jogo.

Uma oportunidade para recomeçar

Para os apostadores ouvidos pelo O Popular, a proibição representa uma chance de interromper o acesso fácil às plataformas e evitar novas perdas. A preocupação com os sites clandestinos, entretanto, mostra que o encerramento das operações legais é apenas uma parte do desafio.

A reconstrução da vida de quem enfrenta o transtorno também depende de apoio familiar, tratamento de saúde mental e estratégias para lidar com dívidas e reorganizar a rotina.

A expectativa dos participantes é que o governo mantenha a fiscalização e consiga reduzir o acesso às plataformas ilegais. Para quem tenta abandonar o vício, impedir novas apostas pode ser um passo importante, mas o acompanhamento profissional continua sendo fundamental para sustentar a mudança.

Serviço — atendimento pelo SUS: acesse o aplicativo Meu SUS Digital, entre na seção “Miniapps” e procure a opção de atendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas. Também é possível procurar diretamente uma UBS ou um CAPS.

Fontes: reportagem do jornal O Popular, publicada em 12 de outubro de 2026; Ministério da Justiça e Segurança Pública; Ministério da Saúde.

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