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Gallup mostra que preocupação e estresse seguem elevados no mundo
Por Luciana de Oliveira Archete
Publicado em 14/10/2026 18:00
Notícias Gerais

Relatório internacional aponta que indicadores negativos permanecem acima dos níveis de duas décadas atrás; situação do Afeganistão ilustra como sofrimento e experiências positivas podem coexistir

A preocupação e o estresse continuam entre os sentimentos mais frequentes no mundo, mesmo depois de recuarem em relação aos picos registrados durante ou em torno da pandemia de Covid-19. É o que mostra o relatório State of the World’s Emotional Health 2026, da Gallup, que acompanha a evolução das emoções e investiga sua relação com as condições de vida em diferentes países.

Nos dados globais mais recentes completos, referentes a 2025, 38% dos entrevistados disseram ter sentido preocupação durante boa parte do dia anterior à pesquisa. O estresse foi relatado por 36%, seguido por dor física (33%), tristeza (26%) e raiva (23%).

Os cinco indicadores permaneceram praticamente estáveis em relação a 2024. Quando comparados com 2006, porém, todos apresentam aumento: a proporção de pessoas que relatam dor física cresceu dez pontos percentuais; preocupação e tristeza avançaram oito pontos cada; estresse subiu sete pontos; e raiva, quatro.

O resultado indica que a melhora em relação aos períodos de maior tensão não foi suficiente para devolver os indicadores aos patamares observados duas décadas atrás.

Emoções negativas e positivas podem coexistir

A pesquisa também identifica uma diferença importante entre a trajetória das emoções negativas e a das positivas. Enquanto preocupação, estresse, dor física, tristeza e raiva permanecem em níveis elevados, vários indicadores positivos se mostram relativamente resilientes.

Desde 2006, a proporção de pessoas que dizem ter aprendido ou feito algo interessante no dia anterior aumentou dez pontos percentuais. A percepção de ter sido tratado com respeito também cresceu ligeiramente. Já a frequência do sorriso ou do riso e a sensação de estar bem descansado permaneceram praticamente estáveis, enquanto o relato de satisfação ou prazer apresentou queda.

Para a Gallup, essa combinação ajuda a explicar por que a experiência emocional não pode ser resumida a uma única medida. Uma pessoa pode sentir preocupação e estresse e, ao mesmo tempo, encontrar momentos de prazer, conexão ou interesse.

As emoções positivas, portanto, não significam necessariamente ausência de sofrimento. Elas podem coexistir com dificuldades persistentes e ajudar as pessoas a lidar com situações adversas, sem eliminar as causas do desconforto.

Afeganistão expõe os efeitos de uma crise prolongada

O relatório dedica uma análise específica ao Afeganistão, país que voltou a ser pesquisado pela Gallup em 2026, após um intervalo de três anos. Os dados oferecem um retrato da população sob o regime do Talibã e das condições emocionais em um país que já não está em guerra, mas continua enfrentando uma crise prolongada.

Em 2026, 62% dos afegãos disseram ter sentido preocupação durante boa parte do dia anterior, ante 67% em 2023. O estresse foi relatado por 56% dos entrevistados, a tristeza por 44%, a dor física por 38% e a raiva por 28%.

Com exceção da redução de cinco pontos percentuais na preocupação, os demais indicadores negativos não apresentaram mudanças significativas em relação a 2023.

As experiências positivas também aparecem em níveis baixos. Apenas 25% dos entrevistados relataram prazer ou diversão, e a mesma proporção disse ter sorrido ou rido durante boa parte do dia anterior. Somente 18% afirmaram ter aprendido ou feito algo interessante, enquanto 37% disseram estar bem descansados. Por outro lado, 67% relataram ter sido tratados com respeito.

Os resultados colocam o Afeganistão entre os países com indicadores positivos mais baixos entre aqueles já pesquisados pela Gallup em 2026.

O caso ilustra que a saúde emocional não depende apenas da ausência de conflitos armados. As condições sociais e econômicas, a segurança, as relações de confiança e o funcionamento das instituições também fazem parte do contexto em que as pessoas experimentam suas emoções.

Redes sociais são apenas uma parte do cenário

A análise sobre o uso das redes sociais, também incluída no relatório, reforça a necessidade de considerar o contexto mais amplo da vida das pessoas. Embora o uso das plataformas esteja associado a resultados favoráveis em alguns indicadores de bem-estar, o tempo de permanência produz resultados diferentes conforme a intensidade de uso, a faixa etária e o país.

Em 97 países e territórios, a Gallup encontrou uma relação moderadamente positiva entre o uso de redes sociais e alguns indicadores de bem-estar, após controlar diferenças como idade, gênero, escolaridade, renda, situação de saúde e apoio social. Ao mesmo tempo, os usuários apresentaram uma associação ligeiramente desfavorável com o estresse.

Quando o tempo de uso é considerado, o quadro fica mais complexo: o uso intenso está associado a mais emoções negativas, enquanto o uso baixo aparece associado a resultados menos favoráveis em alguns indicadores positivos e na avaliação da própria vida.

Esses resultados não demonstram que as redes sociais melhorem ou prejudiquem diretamente a saúde emocional. O levantamento é observacional e não determina a direção da relação entre as variáveis. Tampouco mede o caráter compulsivo do uso ou os conteúdos encontrados nas plataformas.

A conclusão mais ampla do relatório é que a saúde emocional deve ser compreendida a partir de múltiplas dimensões. A tecnologia faz parte da experiência cotidiana, mas não substitui fatores como segurança, condições materiais, relações sociais e estabilidade institucional.

Os dados globais mostram que o sofrimento emocional continua disseminado, enquanto experiências positivas permanecem possíveis mesmo em circunstâncias difíceis. Compreender essa coexistência é parte essencial do desafio de avaliar como as pessoas vivem, enfrentam adversidades e percebem a própria qualidade de vida.

Fonte: Gallup, State of the World’s Emotional Health 2026. Os indicadores globais de emoções referem-se a 2025; os dados sobre o Afeganistão são de 2026.

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