Ouvir rádio

Pausar rádio

Offline
Estado da Saúde Emocional Mundial em 2026
Brasil está entre os países com maior uso intenso de redes sociais, aponta Gallup
Por Luciana de Oliveira Archete
Publicado em 14/10/2026 16:00
Notícias Gerais

Levantamento internacional mostra que quatro em cada dez adultos brasileiros passam ao menos duas horas por dia nas plataformas; relação entre tempo de tela e bem-estar emocional é mais complexa do que parece

O Brasil aparece entre os países em que a população dedica mais tempo às redes sociais. Segundo o relatório State of the World’s Emotional Health 2026, da Gallup, 40% dos adultos brasileiros estão no grupo de uso intenso das plataformas, definido pela pesquisa como duas horas ou mais por dia. O índice é o mais alto entre os dez países analisados pelo levantamento que discutem, propõem ou adotam restrições de acesso às redes sociais por idade.

O estudo, realizado em 97 países e territórios com pessoas a partir de 15 anos, indica que o uso das plataformas digitais faz parte da rotina da maioria da população mundial. Em 2026, a mediana entre os países pesquisados foi de 81% de pessoas que afirmaram ter usado algum tipo de rede social nos sete dias anteriores à entrevista.

No Brasil, 87% dos adultos disseram ter utilizado redes sociais nesse período. A proporção é semelhante à observada em outros países com ampla presença digital, como Estados Unidos, onde o índice chega a 88%, e Austrália, com 86%.

A diferença brasileira aparece principalmente no tempo dedicado às plataformas. Além dos 40% classificados como usuários intensivos, 37% dos adultos estão na faixa de uso moderado, entre 30 minutos e menos de duas horas por dia. Os 24% restantes integram a categoria de baixo uso, que inclui quem não utilizou redes sociais nos sete dias anteriores ou dedica menos de 30 minutos diários a elas. Os percentuais podem não somar exatamente 100% devido ao arredondamento.

Jovens passam mais tempo conectados

A idade é um dos fatores mais associados ao uso das redes sociais. Nos 97 países pesquisados, a mediana de utilização chega a 95% entre pessoas de 15 a 29 anos e a 91% na faixa de 30 a 49 anos. Entre os adultos com 50 anos ou mais, o índice cai para 60%.

O tempo de permanência também aumenta entre os mais jovens. Entre usuários de 15 a 29 anos, a mediana de 52% passa pelo menos duas horas por dia nas plataformas. O percentual é de 33% entre pessoas de 30 a 49 anos e de 23% entre aquelas com 50 anos ou mais.

Os dados ajudam a dimensionar o desafio enfrentado por governos que discutem limites para o acesso de crianças e adolescentes às redes sociais. O relatório registra que quase 40 países estão discutindo, propondo, adotando ou implementando algum tipo de restrição baseada na idade.

A pesquisa, porém, não avalia a eficácia dessas políticas nem permite tirar conclusões específicas sobre os efeitos das plataformas em crianças mais novas. A análise global considera pessoas com 15 anos ou mais e descreve o comportamento da população adulta nos países examinados.

Uso moderado aparece associado a melhores indicadores

A relação entre redes sociais e bem-estar emocional não segue uma linha simples de quanto mais tempo conectado, pior a qualidade de vida. Na análise da Gallup, o uso moderado — de 30 minutos a menos de duas horas diárias — está associado a resultados mais favoráveis em diferentes indicadores emocionais.

Em comparação com esse grupo, pessoas que passam duas horas ou mais por dia nas plataformas têm maior probabilidade de relatar estresse, preocupação, raiva, tristeza e solidão. Também apresentam menor probabilidade de dizer que foram tratadas com respeito.

Já os usuários de baixo uso relatam menos experiências positivas em alguns indicadores e uma avaliação menos favorável da própria vida. Isso significa que o estudo não encontrou uma relação linear na qual a redução do tempo de tela corresponda necessariamente a um aumento do bem-estar.

A análise também identificou diferenças entre países. Nas economias de alta renda, o uso intenso está associado a uma avaliação mais baixa da vida em comparação com o uso moderado. Nos demais países, essa diferença não foi estatisticamente significativa. A maior intensidade de uso, entretanto, aparece associada a mais raiva, solidão e tristeza nos dois grupos.

O tempo de tela não explica tudo

Os próprios pesquisadores ressaltam que o levantamento não mede se o uso das redes é compulsivo, prejudicial ou capaz de interferir nas atividades cotidianas. Também não investiga quais plataformas são utilizadas, que conteúdos as pessoas consomem ou como interagem nesses ambientes.

Essas limitações são importantes porque duas pessoas podem passar o mesmo tempo conectadas e ter experiências muito diferentes. O estudo mostra uma associação entre duração do uso e determinados indicadores emocionais, mas não estabelece que as redes sociais sejam a causa dos sentimentos relatados.

A conclusão da Gallup é que o tempo de tela, isoladamente, oferece uma visão incompleta do bem-estar. Idade, saúde, renda, contexto nacional e disponibilidade de apoio social também ajudam a explicar as diferenças observadas.

No caso brasileiro, o dado de que quatro em cada dez adultos estão na faixa de uso intenso destaca a dimensão do fenômeno. A pesquisa, contudo, não autoriza concluir que esse comportamento, por si só, explique problemas de saúde emocional no país. Para compreender essa relação, é necessário observar também o quadro mais amplo de como as pessoas estão se sentindo e as condições em que vivem.

Fonte: Gallup, State of the World’s Emotional Health 2026. A pesquisa sobre redes sociais foi realizada em 97 países e territórios, com entrevistados a partir de 15 anos.

Comentários