A mobilização brasileira para o World Radiotherapy Awareness Day (WRAD), a ser celebrado em 7 de setembro, contou com o engajamento de 60 serviços de radioterapia das cinco regiões do país. Equipes de 21 estados e do Distrito Federal enviaram vídeos para a ação nacional que busca ampliar o conhecimento sobre o papel da radioterapia como um dos pilares do tratamento do câncer e chamar a atenção para os desafios de acesso à modalidade. A iniciativa é conduzida pela Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), em parceria com a federação responsável pelas Sociedades Latino-americanas de Radioterapia (SOLAR).
Os serviços participantes enviaram vídeos de até sete segundos, gravados na vertical, reunindo suas equipes em torno de cinco mensagens. No Norte, “Uma voz pelo acesso”; no Nordeste, “Uma voz pela equidade”; no Centro-Oeste, “Uma voz pela ciência”; no Sudeste, “Uma voz pela cura”; e, no Sul, “Uma voz pelo cuidado”. Os registros foram reunidos em uma peça nacional, a ser lançada na segunda, dia 7, para mostrar profissionais de diferentes partes do país falando em torno de uma mesma causa.
A adesão de 60 serviços ganha dimensão quando comparada à estrutura existente no país. O relatório RT2030, publicado em 2021 pela SBRT, apontava que o Brasil possuía, naquele ano, 263 serviços de radioterapia. A oferta da modalidade depende não apenas da existência dos centros e de equipamentos, mas também de manutenção, infraestrutura, financiamento e equipes especializadas, que incluem radio-oncologistas, físicos médicos, técnicos e tecnólogos, dosimetristas, profissionais de enfermagem e outras áreas envolvidas no cuidado.
O radio-oncologista e presidente da SBRT, Arthur Accioly Rosa, comenta que envolver profissionais de diferentes partes do Brasil também permite tornar visíveis os contrastes existentes dentro do próprio país. “Nosso Brasil é muito grande, com contrastes e diferenças que também impactam na radioterapia. O trabalho conjunto e a aproximação de nossa comunidade já estão mostrando resultados. O mais desafiador é curar o câncer e fazemos isso todos os dias. Com um pouquinho de energia e organização, vamos chegar às pessoas e tocar no coração delas sobre a importância de uma radioterapia segura, efetiva e com acesso para a população”, afirma Rosa.
A radioterapia utiliza radiações ionizantes direcionadas ao tumor e pode ser empregada em diferentes momentos da jornada oncológica. Dependendo do caso, pode ter intenção curativa, ser combinada à cirurgia ou aos tratamentos sistêmicos, assim como para reduzir o risco de retorno da doença ou ser utilizada para aliviar sintomas como dor, sangramento e compressões provocadas pelo câncer.
Apesar de sua importância, a modalidade ainda convive com desconhecimento e receios associados à própria palavra “radiação”. Rosa destaca que a radioterapia acumula mais de um século de desenvolvimento científico e passou por mudanças importantes na capacidade de localizar os tumores, calcular e administrar as doses e preservar os tecidos saudáveis ao redor.
“A radioterapia é uma especialidade consolidada, com mais de 100 anos de evolução, que nasceu da ciência e nos laboratórios e que vem melhorando a cada dia. Hoje, somos mais precisos e mais efetivos. Os efeitos colaterais reduziram, os processos melhoraram, identificamos melhor nossos alvos, monitoramos o movimento dos tumores para entregar as doses, personalizamos os tratamentos de acordo com as necessidades de cada paciente e seguimos entregando resultados clínicos cada vez melhores e mais consistentes”, explica.
Ampliar o acesso, entretanto, não significa apenas instalar novos equipamentos. Os serviços dependem de investimentos contínuos, manutenção, atualização tecnológica, profissionais qualificados e condições financeiras que permitam seu funcionamento no longo prazo. Conforme explica Arthur Rosa, esse aspecto precisa entrar de forma mais efetiva no debate sobre a expansão da assistência.
“Seguimos com investimentos altos e com custos operacionais elevados, sofrendo com a dependência de doação de máquinas no sistema público como se esse fosse o problema. As políticas públicas têm se sustentado nessa estratégia única, que já se mostrou ineficiente para a solução do problema. Seguimos com carências de recursos humanos e tecnologia, inseridos em um ecossistema tributário desafiador, inclusive com perspectivas de aumento de impostos no curto prazo, movimento que deveria ser o contrário”, diz.
O radio-oncologista Wilson José de Almeida Jr., presidente da SBRT e membro do board da SOLAR, alerta também para a importância do reembolso em radioterapia. “Incrementar os valores de custeio dos tratamentos é essencial para a sustentabilidade da radioterapia nacional. Temos um dos menores reembolsos por tratamento realizado na saúde pública quando comparado aos demais países da América Latina, mesmo tendo o segundo maior parque radioterápico das Américas.
Ainda de acordo com o presidente da SBRT, outro agravante está na diferença na oferta e na capacidade de atendimento dentro do território brasileiro. “A mobilização de serviços de radioterapia nas cinco regiões brasileiras transmite a mensagem de que o acesso à radioterapia precisa ser tratado como uma prioridade de saúde pública e como parte essencial da política de controle do câncer no Brasil”, afirma Almeida Jr.
Segundo ele, a radioterapia precisa ser considerada desde o planejamento da assistência oncológica, incluindo decisões sobre distribuição da oferta, capacidade instalada, recursos humanos, tecnologia e financiamento. O tratamento pode desempenhar diferentes funções conforme o tipo e o estágio do câncer, incluindo a busca pela cura, o controle da doença e o alívio de sintomas. “A radioterapia participa do tratamento de uma parcela expressiva dos pacientes com câncer e, em muitos casos, é decisiva para a cura, o controle da doença e o alívio de sintomas. No entanto, ainda convivemos com desigualdades importantes na distribuição da oferta, na capacidade instalada e no tempo de acesso ao tratamento”, reforça.
Radioterapia na América Latina e no mundo
A discussão ultrapassa as fronteiras brasileiras. Em 2026, WRAD e SOLAR iniciaram uma colaboração para ampliar a conscientização sobre a radioterapia, fortalecer a cooperação regional e defender maior equidade no acesso na América Latina. A SOLAR reúne sociedades nacionais da especialidade, representa diretamente aproximadamente 1,7 mil radio-oncologistas e conecta indiretamente mais de 4 mil profissionais da radioterapia na região.
Entre os desafios compartilhados pelos países latino-americanos estão as desigualdades geográficas, a necessidade de expansão da capacidade instalada, a atualização tecnológica, a formação e qualificação de profissionais e a sustentabilidade do financiamento. A articulação regional pretende favorecer o compartilhamento de conhecimento e experiências e ampliar a presença da radioterapia nas discussões sobre políticas de controle do câncer.
“Quando a comunidade da radioterapia apresenta dados, propostas e prioridades de maneira coordenada, aumenta sua capacidade de dialogar com governos, organismos internacionais e instituições responsáveis pelas políticas de saúde. O World Radiotherapy Awareness Day é, portanto, uma oportunidade de mostrar que investir em radioterapia é investir em infraestrutura permanente para o enfrentamento do câncer. Brasil e América Latina precisam colocar a radioterapia no centro do planejamento oncológico, porque não será possível ampliar o acesso ao tratamento do câncer e melhorar seus resultados sem ampliar, simultaneamente, o acesso à radioterapia”, conclui Almeida Jr.