Durante anos, foram apresentados como exemplos de gestão, expansão e capacidade de construir marcas fortes. Empresas que cresceram, conquistaram mercado, abriram centenas de unidades e, em alguns casos, tornaram-se referências em seus setores. Mas o cenário mudou. Endividamento elevado, juros persistentemente altos, queda nas vendas e mudanças no comportamento do consumidor colocaram gigantes diante de uma realidade difícil. Para algumas, a saída passou a ser a recuperação judicial ou extrajudicial. Para outras, o processo chegou ainda mais longe, com pedidos de falência.
O caso mais recente que chama atenção é o do Grupo Gennius, responsável pelas marcas Habib's, Ragazzo e Tendall. Com quase quatro décadas de atuação no Brasil, o grupo entrou com pedido de recuperação judicial e declarou uma dívida de aproximadamente R$ 265 milhões.
O processo envolve as centenas de lojas próprias da companhia. As unidades franqueadas ficaram de fora e continuam funcionando normalmente.
A crise do grupo reflete uma combinação que vem pressionando empresas de diversos setores. A expansão do delivery alterou a dinâmica do mercado de alimentação, enquanto a redução do movimento em determinados pontos físicos afetou o faturamento de operações dependentes das lojas. Ao mesmo tempo, a necessidade de crédito aumentou e o custo desse dinheiro disparou com a manutenção das taxas de juros em níveis elevados.
O resultado é um ciclo difícil de romper. A empresa precisa de crédito para manter a operação, mas os juros aumentam o custo da dívida. Com menos geração de caixa, fica mais difícil pagar os compromissos, o que aumenta a necessidade de renegociação.
O fenômeno, porém, está longe de ser exclusivo do setor de alimentação.
O Brasil atravessa um período de forte pressão sobre empresas endividadas. O número de companhias em recuperação judicial chegou a níveis recordes, com milhares de processos em andamento. Entre os casos recentes estão nomes conhecidos do consumidor e do mercado financeiro.
O Grupo Pão de Açúcar iniciou em março uma renegociação envolvendo cerca de R$ 4,5 bilhões. O movimento ocorreu por meio de uma recuperação extrajudicial, alternativa utilizada para reorganizar compromissos financeiros sem a mesma estrutura de uma recuperação judicial.
Em junho, o Grupo Toky entrou com pedido de recuperação judicial diante de uma dívida superior a R$ 1 bilhão. O grupo atua no setor de construção e incorporação e se tornou mais um exemplo de como o ambiente de crédito pode transformar rapidamente uma trajetória de crescimento em um problema de liquidez.
Na área de saúde, a Oncoclínicas iniciou em julho um processo de recuperação extrajudicial diante de dívidas estimadas em R$ 5,1 bilhões. O tamanho do passivo mostra que o problema deixou de atingir apenas empresas pequenas ou negócios considerados frágeis.
Outro caso de grande dimensão é o da Raízen. A companhia entrou em recuperação extrajudicial em julho com cerca de R$ 61,4 bilhões em dívidas. O grupo, uma das maiores empresas de energia do país, enfrenta um cenário que combina elevado endividamento, necessidade de capital e pressão sobre resultados.
Em agosto, foi a vez da Braskem recorrer a uma recuperação extrajudicial diante de uma dívida de aproximadamente R$ 56 bilhões. O caso reforça a dimensão do problema no ambiente corporativo brasileiro, já que envolve uma das maiores companhias industriais do país.
No varejo, Casas Bahia também voltou a recorrer à recuperação judicial. O grupo apresentou um passivo de aproximadamente R$ 17,3 bilhões. A empresa já havia passado por um processo de reestruturação e agora enfrenta novamente a necessidade de reorganizar suas obrigações financeiras.
A Marabraz, tradicional marca do varejo de móveis, também entrou com pedido de recuperação judicial em agosto. A dívida informada gira em torno de R$ 140 milhões.
São histórias diferentes, setores diferentes e estruturas financeiras diferentes. Mas existe um elemento comum entre muitos desses casos. Empresas que cresceram apoiadas em crédito passaram a enfrentar um ambiente em que financiar essa expansão ficou muito mais caro.
Durante períodos de juros baixos, tomar dinheiro emprestado pode parecer uma estratégia eficiente para acelerar investimentos, abrir lojas, adquirir concorrentes, ampliar estoques ou conquistar participação de mercado. O problema aparece quando o custo desse capital permanece elevado por tempo suficiente para comprometer a geração de caixa.
A dívida, que antes funcionava como instrumento de crescimento, pode se transformar em uma trava para a operação.
Outro fator é a mudança no comportamento do consumidor. O avanço do comércio eletrônico, dos aplicativos de entrega e de novos modelos de consumo reduziu a previsibilidade de negócios que durante décadas dependiam de estruturas físicas. Empresas que construíram grandes redes passaram a precisar sustentar custos elevados justamente em um momento em que parte da demanda migrou para outros canais.
Isso ajuda a explicar por que a crise não escolheu apenas empresas mal administradas. Alguns dos grupos que hoje renegociam dívidas foram, durante muito tempo, considerados modelos em seus segmentos.
A recuperação judicial, nesse contexto, não significa necessariamente o fim de uma empresa. O objetivo do mecanismo é justamente permitir que um negócio com dificuldades financeiras reorganize suas dívidas e preserve sua atividade. A recuperação extrajudicial busca resultado semelhante por meio de um acordo negociado com credores.
A falência representa uma situação diferente e mais extrema. Quando a recuperação deixa de ser viável, a empresa pode chegar ao encerramento de suas atividades e à liquidação de seus ativos para pagamento dos credores, dentro das regras estabelecidas pela legislação.
O que esses casos revelam, portanto, é uma mudança na percepção sobre o que significa ser uma empresa sólida.
Marca conhecida não é sinônimo de caixa saudável. Crescimento não significa necessariamente geração de valor. Uma grande rede de lojas pode esconder uma estrutura financeira vulnerável, assim como uma empresa tradicional pode carregar uma dívida incompatível com sua capacidade de geração de caixa.
O momento atual funciona como um teste de resistência para o empresariado brasileiro. Empresas que durante anos foram admiradas pela capacidade de crescer agora precisam demonstrar outra competência, talvez menos glamourosa, mas igualmente importante. A capacidade de sobreviver quando o dinheiro fica caro, o consumidor muda e a dívida deixa de ser uma aliada para se transformar em ameaça.
No fim, o verdadeiro modelo de gestão não é apenas aquele que sabe crescer nos bons tempos. É aquele que consegue preservar o negócio quando os bons tempos acabam.
