Quando Sinéia do Vale tinha 23 anos, o estado de Roraima sentiu uma das piores secas da sua história, em 1998. Também conhecida como Sinéia Wapichana, hoje ela coleciona títulos e credenciais. É a enviada especial da COP30, realizada em Belém em 2025. Mas, naquele final dos anos 1990, estava em seu território sem saber que um evento climático iniciaria sua jornada de ativismo ambiental.
Na terra indígena onde nasceu e vive até hoje, a Raposa Serra da Lua, na fronteira entre o Brasil e a Guiana, chegaram os efeitos de um forte El Niño, que provocaram o recorde de aproximadamente 790 mil hectares queimados. Esse foi o ano em que ela começou a se envolver com a causa ambiental e climática. Também foi em 1998 que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) começou a monitorar as queimadas na Amazônia.
Sinéia Wapichana transformou a experiência da seca de 1998 em uma trajetória de atuação pela proteção do território. - Crédito: Marcio Nagano
Em 2015, a Amazônia brasileira sofreria novos e mais intensos efeitos de mais um El Niño. Mais recentemente, em 2024, o fenômeno foi menos intenso do que outros, mas levou a uma seca extrema que abalou a agricultura familiar com a perda de cultivos; comunidades ribeirinhas ficaram isoladas com a seca dos rios; a queimada se espalhou para além do previsto; a fumaça tomou conta de cidades e houve mortandade de animais e vegetais na floresta.
De acordo com comunicado da Organização Mundial de Meteorologia, o ano de 2026 será marcado por um El Nino possivelmente muito forte. Desta vez, Sinéia e lideranças de comunidades na Amazônia estão mais preparadas, mesmo com a ausência de políticas públicas claras e estruturadas, por conta do duro aprendizado de eventos anteriores.
Pesquisadores e ribeirinhos acompanham diariamente o comportamento dos rios, brigadistas recebem treinamento internacional, povos indígenas estruturam redes de resposta rápida para antecipar decisões diante do El Niño, que é um fenômeno natural e cíclico que aumenta as temperaturas oceânicas do Oceano Pacífico, provocando padrões climáticos e de precipitação mais extremos globalmente.
Prevenção que vem da prática e articulação em defesa do território
Em 1998, Sinéia trabalhou em um projeto emergencial para abastecimento de água e recuperação de sementes nas comunidades, sem ter recebido treinamento para isso. A atuação era o início de uma trajetória que incluiu sua formação como gestora ambiental, há 20 anos, e sua participação em iniciativas de mitigação das mudanças climáticas logo depois.
Ela participou da criação da formação de Agentes Ambientais Indígenas, de Brigadas Comunitárias Indígenas e se tornou co-presidente do Caucus Indígena pela América Latina e Caribe, um grupo internacional de articulação política de diversos povos, que alinham posicionamentos coletivos no âmbito da Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas.
Ainda que a seca que despertou a atenção de Sineia para o clima tenha sido marcante em sua vida, o futuro aguardava cenários piores. Em 2024, por exemplo, foi registrado um recorde histórico de 2 milhões de hectares queimados em Roraima, ou seja, mais de 2,5 vezes o registrado em 1998.
Queimadas em Roraima durante os eventos de El Niño de 1998 e 2024.
O estado de Roraima tem uma particularidade que se diferencia da maior parte da Amazônia Legal. Sua área possui uma grande porção de campo alagado, formação campestre e lavoura, tipos de vegetação que tornam mais propícia a proliferação do fogo em comparação à floresta úmida.
Tendo esse histórico em mente, a emergência de dois anos atrás fez Sinéia do Vale perceber que é preciso intensificar a preparação e inverter a lógica das respostas às secas extremas: identificar os problemas antes que eles se tornem emergências.
Por isso, ela participa da criação de um comitê permanente envolvendo lideranças indígenas, Defesa Civil, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e organizações locais.
A equipe desenvolveu uma ferramenta para mapear, comunidade por comunidade, necessidades relacionadas ao acesso à água potável, sementes, alimentos e atendimento em saúde. "Esse levantamento precisa acontecer antes que o problema aconteça. Na emergência, é muito difícil chegar até a última família, principalmente quando ela está isolada por uma grande seca", afirma.
Para Sineia, o maior desafio atualmente é superar os entraves burocráticos: "Muitas vezes, quando conseguimos levar água, sementes ou comida para uma comunidade, já passou um ou dois anos". Quando o impacto do El Niño chegar, essa etapa de mapeamento e preparação já está concluída, podendo ir direto à ação.
Quais as previsões para o El Niño deste ano?
O meteorologista Everaldo de Souza, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que o El Niño sempre existiu, mas o agravante atual é que isso acontece em um planeta muito mais quente do que antes. “A questão é saber se neste ano o El Niño estará muito mais forte do que eventos passados e poderá levar uma seca ainda maior na Amazônia. A gente não sabe 100%, mas há fortes indícios de que sim", acrescenta.
Meteorologista Everaldo de Souza alerta para os possíveis impactos de um El Niño mais intenso na Amazônia. - Crédito: Marcio Nagano
Everaldo se preocupa com o chamado "efeito lag", o intervalo entre a formação do El Niño e seus impactos sobre a Amazônia, que parece estar menor - o que é ainda mais preocupante.
Se antes os efeitos mais severos eram esperados apenas no início do ano seguinte, hoje eles podem começar já a partir de setembro, reduzindo a janela para que governos e comunidades se organizem e tomem decisões para minimizar os impactos. Os prognósticos indicam que em setembro, outubro e novembro de 2026, os efeitos antecipados (com um lag mais curto) já comecem a ser sentidos na Amazônia, com grande chance de ocorrência de secas extremas ao longo dos estados do Acre, Rondônia, Amazonas e Pará. Estes padrões podem perdurar até o início do ano seguinte, entre os meses de janeiro e fevereiro de 2027. Por isso, o monitoramento mês a mês é crucial para atualizar essas previsões e alertas sobre as secas extremas.
"Mas o momento não é de pânico, é de prevenção, preparação e tomada de decisão", adverte o professor.
Com os prognósticos de um fenômeno ainda mais severo e intenso, tem sido comum utilizar a expressão "super El Niño", que pode ter impactos ainda maiores que os registrados em 2023 e 2024, quando o mundo registrou 13 meses consecutivos de temperaturas recordes e o Brasil sofreu com ondas de calor durante o ano todo, em um El Niño considerado moderado no Oceano Pacífico.
Everaldo reconhece que a intenção de usar o termo "super El Niño” pode ser adequado no contexto de chamar a atenção à seriedade do fenômeno, mas alerta que essa terminologia pode simplificar uma dinâmica muito mais complexa. Para ele, na Amazônia, a intensidade dos impactos depende não apenas do aquecimento das águas do Pacífico, mas também da interação com o Oceano Atlântico e com uma atmosfera carregada de mais energia devido ao aquecimento global.
A Organização Mundial de Meteorologia (WMO) não utiliza o termo “super El Niño”, embora alerte para os impactos exacerbados, devido a um oceano e uma atmosfera mais quentes que aumentam a disponibilidade de energia e umidade para eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e queimadas na Amazônia.
Aprender a lidar com o fogo
Quem vive diariamente a floresta, como Sinéia, já vem se preparando nos últimos anos para que o impacto desta vez seja bem menor. Em Belterra, no oeste do Pará, a engenheira florestal Jéssica Reis trabalha com restauração florestal, mas agora também faz parte da brigada de manejo do fogo. Jéssica recorda bem das queimadas e da seca de 2023 e 2024.
Jéssica Reis atua na restauração florestal e no manejo integrado do fogo no Baixo Tapajós. - Crédito: acervo pessoal Jéssica Reis.
Sua história no Baixo Tapajós (microrregião da qual Belterra faz parte) começou com um trabalho do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) para restaurar 25 hectares de floresta em duas aldeias dentro do território indígena Tupinambá que passaram por queimadas em 2019. “Começamos a trabalhar em 2022, mas no ano seguinte vieram os incêndios florestais novamente e perdemos praticamente tudo o que já tinha sido plantado, sobraram apenas 98 das 4 mil mudas que tínhamos plantado", relata.
Entre outubro e novembro de 2024, o Baixo Tapajós chegou a registrar mais de 350 focos de incêndio, segundo levantamento feito pela FASE com dados da plataforma Terra Brasilis. "A partir disso, a comunidade percebeu que, se tivesse equipamento e treinamento, conseguiria controlar o fogo logo no início. Mas foi preciso esperar a chegada das brigadas e, quando elas chegaram, o incêndio já tinha tomado conta", avalia.
A experiência transformou a estratégia local: em vez de investir apenas na recuperação das áreas queimadas, o território passou a estruturar uma brigada comunitária permanente, formada por moradores treinados para atuar antes que pequenos focos se transformem em grandes incêndios. Conseguiram apoio do Fundo Casa Socioambiental, para estruturar essa brigada, em uma das aldeias, e em 2025 iniciaram as atividades.
O trabalho incluiu uma oficina sobre o Manejo Integrado do Fogo, que basicamente ensina sobre como utilizar do fogo para uso ancestral e para roça, com segurança; treinamento para manusear os principais equipamentos envolvidos; e orientações sobre como fazer os primeiros socorros. Em seguida, junto ao Instituto Chico Mendes (ICMBio), os próprios moradores da aldeia formaram sua brigada, com 17 pessoas. “No final de 2025, conseguimos um novo recurso, agora com o Fundo Brasil de Direitos Humanos, que tem permitido a gente dar continuidade ao trabalho", complementa.
À parte, a restauração florestal continua sendo feita na microrregião e, agora, Jéssica é coordenadora das atividades do polo de referência do bosque de pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) de Belterra, onde também atua com educação ambiental, dentre outras atividades.
Em abril de 2026, já antecipando os preparativos para os efeitos do El Niño, ela foi selecionada para participar de uma formação internacional na Espanha, sobre manejo integrado do fogo, queima prescrita, que é quando se usa uma quantidade controlada de fogo para eliminar o excesso de matéria orgânica seca que poderia alimentar grandes incêndios descontrolados.
Brigadistas preparando estratégias de prevenção e combate aos incêndios florestais. - Crédito: acervo pessoal Jéssica Reis.
“Esse foi um evento voltado para mulheres dentro de uma área que normalmente é muito masculinizado. Foram doze dias de treinamento intensivo, e foi a primeira vez que chefiei um esquadrão de combate ao incêndio, liderando equipes compostas por profissionais de diferentes países", diz. Aprenderam sobre monitoramento do fogo, o que fazer em caso de incêndio florestal, como usar os equipamentos para controlar a dispersão dessa queimada. "Não é só apagar fogo. É planejar, prevenir, conhecer o território e fortalecer quem mora nele", afirma.
Manejo integrado do fogo busca reduzir riscos e fortalecer a atuação local antes dos grandes incêndios. - Crédito: acervo pessoal Jéssica Reis.
“Essa experiência me deixou muito mais confiante. Até como mulher, ver outros profissionais que trabalham em helicópteros, pilotam, pulam de lá para chegar no incêndio, tudo isso ajuda muito a ter essa perspectiva. Foi transformador", conclui.
Da resposta à prevenção
É sob a mesma ótica de Sineia do Vale, em Roraima, que o Instituto Mamirauá tem adotado novas estratégias em suas ações em Tefé, no Amazonas. Este é um dos lugares que mais sentiram a seca em 2023 e 2024. Foi ali que centenas de botos morreram em 2023 e que comunidades inteiras enfrentaram dificuldades para conseguir água potável, alimento e transporte. Desde então, o Instituto Mamirauá, que promove pesquisas e ações para a conservação do meio ambiente e desenvolvimento local na Amazônia, reorganizou sua atuação.
Segundo o pesquisador Ayan Santos Fleischmann, a experiência mostrou que concentrar esforços apenas na resposta ao desastre significa chegar tarde demais. "A gente vive um período de incerteza. Por isso, o foco precisa ser na prevenção", enfatiza.
Pesquisador Ayan Santos Fleischmann destaca a importância de transformar resposta em prevenção. - Crédito: acervo pessoal
Hoje, o instituto trabalha em três frentes simultâneas. A primeira é social. Lideranças comunitárias participam de oficinas antes da seca para discutir medidas preventivas, elaborar planos de ação e construir reivindicações conjuntas aos governos municipais, estaduais e federal.
A segunda busca enfrentar um problema histórico que as estiagens apenas escancaram: o acesso à água potável. Além de distribuir cartilhas e kits para tratamento emergencial da água dos rios, o que já foi feito durante a seca de 2024, o Mamirauá passou a defender investimentos permanentes em poços artesianos, sistemas de abastecimento e cisternas adaptadas à realidade amazônica. "A gente importou para a Amazônia uma tecnologia criada para o Semiárido, onde já havia mais experiência em secas. Isso mostra o tamanho do desafio", diz.
Assim, em eventuais secas as comunidades não precisam depender de doação de água mineral engarrafada para subsistência. “Quando acontece um desastre assim, é que as fragilidades ficam escancaradas, em que as políticas públicas são insuficientes", argumenta Ayan.
A terceira frente acontece dentro dos próprios ecossistemas. Pesquisadores monitoram peixes, botos, fitoplâncton, qualidade da água e temperatura dos lagos para construir séries históricas capazes de indicar rapidamente quando o ambiente começa a sair do comportamento considerado normal.
Esse esforço ganhou escala com o projeto Lagos Sentinelas da Amazônia, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que reúne comunidades entre Tefé e Santarém para monitorar continuamente cinco lagos amazônicos. "A gente precisa entender o que é normal para conseguir reconhecer as anomalias quando elas aparecem", explica. Desse modo, o objetivo é entender como funcionam os processos ecológicos e as informações sobre o consumo da água das comunidades, tentando preencher a lacuna histórica de dados de longo prazo.
Monitoramento permite acompanhar a seca no rio
Lideranças comunitárias acompanham mudanças nos rios para antecipar decisões durante períodos de seca. - Crédito: acervo pessoal Silas Rodrigues
Além de produzir dados científicos, o projeto do Instituto Mamirauá aposta em uma ciência construída junto às comunidades. Essa parceria já mudou a rotina de Silas Rodrigues, líder comunitário e presidente da comunidade ribeirinha Bom Jesus da Ponta da Castanha, uma pequena comunidade ribeirinha onde vivem nove famílias.
Todos os dias, ele acompanha informações sobre o nível dos rios em municípios como Tabatinga e compara os dados com observações feitas pelos próprios moradores. Ao longo dos anos, eles perceberam que a descida das águas em regiões mais altas do Solimões costuma chegar à comunidade cerca de quinze a vinte dias depois.
"Antes, a gente não tinha essas atualizações. Hoje acompanha todo dia a subida e a descida da água. A gente não fica mais perdido, não é pego de surpresa", informa.
O monitoramento ajuda a decidir quando viajar, transportar produtos, organizar o turismo de base comunitária e até prever quando crianças precisarão caminhar centenas de metros pela praia formada pela seca para chegar à escola.
Durante a estiagem de 2024, as canoas encalharam, a pesca despencou e famílias ficaram praticamente ilhadas. Ainda que Silas saiba que não dá para impedir uma nova seca extrema, ele reflete que esse monitoramento agora permite ter tempo para agir.
Desse modo, se o próximo El Niño vier acompanhado de novos recordes de calor, ele encontrará uma Amazônia que continua vulnerável, mas que aprendeu que enfrentar um desastre começa muito antes de o rio secar. “As pessoas ficaram com medo em 2023 e 2024. Agora não vai ser mais assim. Não vai mais me pegar de surpresa”, conclui.