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HPV, álcool e tabagismo são os principais fatores de risco do câncer de amígdala
Publicado em 05/10/2026 14:00
Notícias Gerais

O câncer de amígdala, que ganhou repercussão após o cantor Netinho de Paula anunciar que está em tratamento contra a doença, tem entre seus principais fatores de risco a infecção pelo HPV-16, o tabagismo e o consumo de álcool; estudo brasileiro analisou 17.980 casos de câncer de orofaringe registrados entre 1988 e 2020, entre eles 4.048 com origem nas amígdalas, o equivalente a 22,5% dos registros

O câncer de amígdala ganhou repercussão após o cantor e apresentador Netinho de Paula anunciar publicamente que está em tratamento contra a doença. O tumor faz parte dos cânceres da orofaringe e está associado a diferentes fatores de risco, entre eles a infecção pelo papilomavírus humano (HPV), especialmente o tipo 16, o tabagismo e o consumo de álcool. Segundo o National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos, estudos apontam uma associação particularmente forte entre o HPV-16 e os tumores de amígdala. Uma revisão sistemática e meta-análise de cinco estudos encontrou um risco 15,1 vezes maior de câncer de amígdala entre pessoas com evidência de infecção pelo HPV-16. O tabagismo também aumenta o risco de câncer de orofaringe. Já o consumo de álcool está associado à doença mesmo entre pessoas que não fumam. Além disso, a combinação dos dois fatores pode elevar ainda mais o risco. 

Embora o Instituto Nacional de Câncer (INCA) não apresente uma estimativa específica para os tumores de amígdala no Brasil, são estimados 4.850 novos casos de câncer de orofaringe no país em 2026, sendo 3.910 entre homens e 940 entre mulheres. A orofaringe corresponde à região localizada atrás da cavidade oral e inclui estruturas como as amígdalas, também chamadas de tonsilas palatinas, a base da língua e a região posterior da garganta. Um estudo brasileiro publicado em 2025 na revista Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention, da American Association for Cancer Research (AACR), analisou dados de 30 Registros de Câncer de Base Populacional entre 1988 e 2020 e identificou 17.980 casos de câncer de orofaringe. Desse total, 4.048, o equivalente a 22,5%, tiveram as amígdalas como localização primária do tumor. Dados mais recentes dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) também mostram a predominância da doença entre os homens. Em 2023, foram registrados 274 casos de câncer de amígdala, dos quais 227 (82,8%) ocorreram em homens e 47 (17,2%) em mulheres.

De acordo com o cirurgião oncológico e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), Paulo Henrique Fernandes, trata-se de um câncer que apresenta fatores de risco que podem ser prevenidos. “O HPV-16, um dos tipos do papilomavírus humano (HPV), é um dos principais fatores associados aos cânceres de orofaringe. A infecção pelo vírus pode contribuir para alterações nas células e, em alguns casos, favorecer o desenvolvimento de tumores. A boa notícia é que temos uma vacina disponível que protege contra diferentes tipos de HPV de alto risco, reduzindo a possibilidade de infecções que podem estar relacionadas a esse e a outros tipos de câncer”, explica o especialista.

O HPV-16 está entre os tipos contemplados pela vacina quadrivalente contra o HPV oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18. O HPV é uma infecção sexualmente transmissível, transmitida principalmente pelo contato sexual com uma pessoa infectada. Na maioria dos casos, o próprio sistema imunológico consegue eliminar o vírus naturalmente. No entanto, quando a infecção persiste, especialmente por tipos de HPV de alto risco, podem ocorrer alterações nas células que, ao longo dos anos, favorecem o desenvolvimento de alguns tipos de câncer. “A evolução pode ser lenta e silenciosa, podendo levar décadas entre a infecção e o surgimento de um tumor. A prevenção inclui a vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente pelo SUS em dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. Até dezembro deste ano, a vacinação também foi ampliada para jovens de 15 a 19 anos que ainda não receberam o imunizante, além de outros grupos com indicação específica. A vacina também está disponível na rede privada”, afirma Fernandes. 

Levantamento da SBCO, elaborado com base em dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, referente ao período de 2020 a 2024, aponta que foram registrados 11.239 mortes por câncer de orofaringe no período, das quais 9.408 ocorreram em homens (83,7% do total). Os dados mostram que o câncer de orofaringe também afeta uma parcela expressiva de adultos antes da terceira idade. Entre todos os óbitos registrados no período, 1.210 ocorreram em pessoas com menos de 50 anos, o equivalente a 10,8% do total. Considerando a população com menos de 60 anos, foram 4.231 mortes, correspondendo a 37,6% dos registros. Embora o maior número absoluto de óbitos permaneça concentrado entre 60 e 69 anos, com 3.863 mortes, especialistas observam que o perfil epidemiológico desses tumores vem mudando nas últimas décadas.

O consumo de tabaco, incluindo cigarros convencionais e outros dispositivos de fumo, como cigarros eletrônicos e vapes, e o consumo de álcool também estão relacionados ao aumento do risco de tumores de orofaringe, sobretudo quando associados. Nas últimas décadas, porém, os casos relacionados ao HPV passaram a ter maior participação no perfil da doença.

“Essa mudança é importante porque estamos falando de pacientes com características diferentes daquelas historicamente associadas aos cânceres de cabeça e pescoço. Nos tumores de amígdala e base da língua relacionados ao HPV, vemos com frequência homens entre 40 e 60 anos que nunca fumaram. Por isso, a ausência de histórico de tabagismo não deve afastar a atenção para sinais persistentes nessa região”, afirma Carlos Eduardo Santa Ritta Barreira, coordenador das Comissões de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da SBCO. 

Entre os sinais que merecem atenção estão dor ou dificuldade persistente para engolir, dor de garganta que não melhora, sensação de algo preso na garganta, alteração da voz, dor de ouvido sem causa aparente e aparecimento de nódulo no pescoço. A persistência desses sintomas deve motivar uma avaliação médica. 

Como tratar o câncer de amígdala?

O cantor Netinho de Paula anunciou que irá fazer uma pausa na agenda de shows para iniciar o tratamento cirúrgico. O tratamento do câncer de amígdala depende de fatores como o tamanho e a localização do tumor, o estágio da doença, o comprometimento de linfonodos do pescoço e a presença ou não de metástases. Entre as principais opções estão cirurgia, radioterapia e quimioterapia, que podem ser utilizadas isoladamente ou combinadas.

Em alguns casos, especialmente nos tumores iniciais, a cirurgia pode ser indicada para a retirada da lesão, inclusive por técnicas minimamente invasivas, como a cirurgia robótica transoral (TORS), que permite acessar regiões profundas da garganta pela boca. Quando há comprometimento dos linfonodos cervicais, também pode ser necessária a realização de uma dissecção do pescoço para removê-los.

A radioterapia também tem papel importante no tratamento, podendo ser utilizada como alternativa à cirurgia em determinados casos ou após o procedimento cirúrgico, quando há necessidade de reduzir o risco de que células tumorais remanescentes provoquem uma recidiva. Em situações específicas, a radioterapia pode ser associada à quimioterapia, estratégia conhecida como quimiorradioterapia, com o objetivo de potencializar o efeito do tratamento.

“A definição da melhor estratégia depende de uma avaliação individualizada e de uma equipe multidisciplinar. Não existe um único tratamento para todos os pacientes com câncer de amígdala. Precisamos considerar o estágio da doença, as características do tumor, o comprometimento dos linfonodos e as condições clínicas do paciente para definir se a melhor abordagem será cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou uma combinação dessas modalidades”, explica o especialista.

Nos casos em que a doença está mais avançada, retornou após o tratamento ou se espalhou para outras regiões do corpo, podem ser utilizadas outras estratégias, como quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo. A imunoterapia atua estimulando o sistema imunológico a reconhecer e combater as células tumorais, enquanto as terapias-alvo atuam sobre mecanismos específicos envolvidos no crescimento e na disseminação do câncer.

Sobre a SBCO - Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes (2025-2027).

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