Em um cenário marcado pelo agravamento das mudanças climáticas e pela persistência das desigualdades no acesso ao saneamento, o Brasil continua desperdiçando uma parcela expressiva da água que produz e trata. Estudo do Instituto Trata Brasil (ITB), em parceria com a GO Associados, revela que 39,53% da água potável distribuída no país foi perdida em 2024 antes de chegar às torneiras da população. O volume desperdiçado — cerca de 4,4 bilhões de metros cúbicos — seria suficiente para abastecer aproximadamente 77 milhões de brasileiros durante um ano.
O número chama ainda mais atenção quando comparado à realidade do acesso à água no país: o volume perdido corresponde a mais do que o dobro da população que ainda não conta com abastecimento regular de água, estimada em cerca de 33 milhões de pessoas. Também equivale a mais de um quarto da população brasileira.
Além do impacto social, as perdas representam um enorme desperdício ambiental e econômico. O volume perdido em 2024 corresponde ao equivalente a 4,8 mil piscinas olímpicas de água desperdiçadas diariamente. Caso o país consiga reduzir as perdas dos atuais 39,53% para a meta de 25% estabelecida para 2033, seria possível economizar cerca de 2,8 bilhões de metros cúbicos de água por ano, volume suficiente para abastecer aproximadamente 48 milhões de brasileiros ou garantir água para os 17,2 milhões de habitantes de comunidades vulneráveis por dois anos.
A redução das perdas também representa uma estratégia essencial de adaptação às mudanças climáticas, ao aumentar a disponibilidade hídrica sem a necessidade de ampliar a captação em novos mananciais. Sob a perspectiva econômica, o alcance da meta nacional pode gerar ganhos brutos estimados em R$ 47,3 bilhões até 2033, reforçando a importância de investimentos em eficiência operacional e modernização dos sistemas de abastecimento.
O estudo, elaborado com base nos dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA) referentes a 2024, analisa o desempenho do Brasil, das cinco regiões, dos 26 estados e do Distrito Federal, além dos 100 municípios mais populosos do país, revelando avanços pontuais, mas também a urgência de acelerar ações para combater um dos maiores gargalos do saneamento brasileiro.
