A combinação entre cirurgia, imunoterapia e medicina de precisão está remodelando o tratamento dos cânceres de rim e bexiga. Esse foi o principal recado da sessão “Estado da Arte: Avanços no Manejo Perioperatório de Cânceres de Bexiga e Rim”, realizada durante a reunião anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO 2026), em Chicago. O encontro abordou os avanços no período perioperatório (que compreende as etapas antes e depois da cirurgia) estão abrindo novas possibilidades para pacientes com tumores urológicos localizados. Embora a cirurgia continue sendo o principal tratamento para muitos desses casos, novas terapias e biomarcadores vêm ampliando as possibilidades de personalização do cuidado.
Ao analisar as apresentações, o cirurgião oncológico Gustavo Cardoso Guimarães, afirma que a sessão refletiu uma mudança importante na forma como a oncologia encara os tumores urológicos de maior risco. “Estamos vendo os cânceres de rim e bexiga seguirem um caminho semelhante ao de outras áreas da oncologia. O objetivo é identificar pacientes com maior risco de recorrência e tratá-los mais cedo para reduzir esse risco. Os resultados apresentados são promissores, mas ainda precisamos aperfeiçoar a seleção dos pacientes e validar biomarcadores que permitam individualizar essas decisões”, afirma Guimarães, diretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR) e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos e de medicina genômica da BP.
NOVAS ESTRATÉGIAS PARA REDUZIR RISCO DE VOLTA DO CÂNCER DE RIM - A primeira parte da sessão foi dedicada ao carcinoma de células renais, o tipo mais comum de câncer de rim. A oncologista Rana McKay, da Universidade da Califórnia em San Diego, destacou que muitos pacientes são diagnosticados quando a doença ainda está restrita ao rim, mas apresentam riscos bastante diferentes de recorrência após a cirurgia.
Embora a abordagem neoadjuvante já seja consolidada em diversos tumores sólidos, sua incorporação ao câncer renal ainda está em construção. Estudos com terapias-alvo administradas antes da cirurgia demonstraram taxas de resposta radiológica variando entre 7% e 46%, dependendo do medicamento e da população avaliada. Nos últimos anos, a atenção passou a se concentrar na imunoterapia. Dados observados em pacientes com doença metastática demonstraram que medicamentos capazes de ativar o sistema imunológico também podem provocar redução significativa dos tumores primários localizados nos rins.
Um dos resultados considerados mais relevantes apresentados na sessão veio de uma análise retrospectiva envolvendo pacientes que receberam imunoterapia antes da nefrectomia. O estudo identificou redução do estadiamento patológico em 44% dos casos e encontrou resposta patológica completa em 13% dos pacientes, ou seja, ausência de tumor viável na peça cirúrgica após o tratamento sistêmico.
Apesar do entusiasmo, os especialistas reforçaram que a terapia neoadjuvante para câncer renal ainda permanece investigacional. Um dos principais desafios é estabelecer critérios padronizados para avaliar a chamada resposta patológica, considerada um dos potenciais indicadores de benefício mais promissores para estudos futuros.
“Os resultados são encorajadores porque mostram que alguns pacientes podem estar se beneficiando de forma importante dessas estratégias antes da cirurgia. Mas o verdadeiro teste será verificar se essas respostas se mantêm ao longo do tempo e se impactam desfechos que realmente importam, como recorrência e sobrevida. Os estudos em andamento devem nos ajudar a entender melhor quem são os pacientes que mais ganham com esse tipo de tratamento”, afirma Gustavo Guimarães.
BIOMARCADORES E INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL - A segunda apresentação abordou o câncer de bexiga invasivo muscular, uma doença tradicionalmente tratada com quimioterapia seguida de cistectomia radical. Brendan Guercio, da Universidade de Rochester, afirmou que a chegada de esquemas perioperatórios baseados em imunoterapia está promovendo uma das maiores transformações já observadas nessa área.
Há anos os estudos mostram que pacientes que alcançam resposta patológica completa após quimioterapia realizada antes da cirurgia apresentam taxas de sobrevida global de aproximadamente 85% em cinco anos. Agora, os resultados obtidos com combinações mais modernas parecem ampliar ainda mais esse benefício. Estudos apresentados durante a sessão mostraram que esquemas envolvendo enfortumab vedotin e pembrolizumabe produziram resposta patológica completa em 55% a 57% dos pacientes, números considerados expressivos para uma doença historicamente associada a altas taxas de recorrência.
Os dados também sugerem melhora da sobrevida em comparação com estratégias tradicionais. “Os resultados observados com algumas dessas combinações são impressionantes. Taxas de resposta patológica completa acima de 50% eram algo difícil de imaginar há poucos anos. Isso sugere que estamos diante de uma mudança real no prognóstico de uma parcela importante dos pacientes”, avalia Gustavo Guimarães.
Apesar dos resultados animadores, os especialistas alertaram que a obtenção de resposta completa não significa necessariamente que o tratamento pode ser interrompido. Os estudos que levaram à aprovação desses esquemas incluíram tratamento antes e depois da cirurgia e, por isso, ainda não existem evidências suficientes para afirmar que pacientes com excelente resposta possam suspender com segurança a etapa pós-operatória.
Outro destaque da sessão foi o crescente interesse pelo DNA tumoral circulante, conhecido pela sigla ctDNA, um tipo de biópsia líquida. Por meio do exame se busca fragmentos de DNA tumoral no sangue para indicar a presença de doença residual microscópica. Pacientes com ctDNA negativo após a cirurgia apresentam prognóstico significativamente melhor, mas a tecnologia ainda não está validada para orientar decisões de redução ou interrupção do tratamento. “O ctDNA vem se mostrando uma ferramenta importante para identificar a presença de doença residual que muitas vezes não é detectada pelos exames convencionais. Os resultados apresentados reforçam seu valor prognóstico, mas ainda não existem evidências suficientes para que ele seja utilizado isoladamente na decisão de reduzir ou suspender tratamentos”, afirma Gustavo Guimarães.
A sessão também abordou o avanço da inteligência artificial aplicada à patologia. Ferramentas capazes de analisar imagens digitais de lâminas tumorais já começam a ser utilizadas para estimar risco de recorrência e potencial resposta aos tratamentos. Apesar do entusiasmo, especialistas alertaram que muitas dessas tecnologias ainda precisam de validação adicional antes de serem incorporadas de forma ampla à prática clínica.
A discussão final da sessão girou em torno da necessidade de evitar tratamentos excessivos. Diversos participantes defenderam que o futuro da oncologia urológica passa não apenas pela incorporação de novas terapias, mas também pela capacidade de identificar quais pacientes realmente precisam delas. “O grande desafio agora é identificar com mais precisão quais pacientes podem se beneficiar dessas novas estratégias. A integração entre cirurgia, biomarcadores e conhecimento da biologia tumoral deve tornar as decisões terapêuticas cada vez mais individualizadas nos próximos anos”, conclui Gustavo Guimarães.
