O governo federal apresentou nesta segunda-feira (4) um novo pacote de medidas para combater o endividamento da população brasileira, que já atingia mais de 100 milhões de pessoas, segundo dados do Banco Central. A iniciativa, que vinha sendo chamada de “Desenrola 2.0”, previa renegociação de dívidas com descontos de até 90%, juros limitados a 1,99% ao mês e a possibilidade de uso de até 20% do saldo do FGTS para quitação de débitos.
O programa contemplaria principalmente dívidas de cartão de crédito, cheque especial, crédito pessoal e financiamento estudantil, com foco em famílias de renda de até cinco salários mínimos. A operação envolvendo o FGTS seria feita diretamente entre instituições financeiras, com autorização do trabalhador.
Apesar do alcance e do potencial de impacto imediato, especialistas fizeram um alerta: mais uma vez, o país apostava em medidas que atacavam o efeito do problema, mas não sua causa. Para o presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira (ABEFIN) e da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos, a iniciativa poderia gerar alívio momentâneo, mas não resolveria o ciclo recorrente de endividamento.
“O que vimos foi o combate ao efeito, não à causa. A dívida é a consequência de um comportamento financeiro desorganizado. Se isso não for tratado, a tendência seria que as pessoas limpassem o nome naquele momento e, em pouco tempo, voltassem a se endividar”, afirmou.
O que fazer antes de aderir ao programa
Diante da nova rodada de renegociação, o especialista reforçou que o primeiro passo não deveria ser a adesão imediata, mas sim o entendimento da própria realidade financeira. “Antes de entrar em qualquer programa, era fundamental fazer um diagnóstico completo. A pessoa precisava saber quanto ganhava, quanto gastava, quais eram suas dívidas, suas prioridades e seus objetivos. Sem isso, ela poderia tomar uma decisão que parecia boa no curto prazo, mas que não se sustentaria no tempo”, orientou.
Ele destacou que a renegociação só seria efetiva se viesse acompanhada de mudança de comportamento. “Não adiantava trocar uma dívida por outra ou usar um recurso como o FGTS sem reorganizar o orçamento. O problema não estava apenas na dívida, mas na forma como o dinheiro era administrado.”
Os riscos de usar o FGTS
Um dos pontos mais sensíveis do novo programa foi justamente a liberação de parte do FGTS para pagamento de dívidas. Embora pudesse parecer uma solução simples, o uso desse recurso exigia cautela. Criado como uma reserva de proteção ao trabalhador, o FGTS tinha como função principal garantir segurança em momentos críticos, como demissão ou aposentadoria.
“Quando o trabalhador utilizava o FGTS para quitar dívidas sem mudar sua estrutura financeira, ele trocava uma segurança futura por um alívio imediato. Isso poderia gerar uma vulnerabilidade ainda maior no futuro”, alertou Domingos.
Além disso, o uso do fundo não resolvia, por si só, a origem do endividamento. “O risco era a pessoa usar o FGTS, quitar a dívida e, meses depois, voltar ao crédito porque não houve mudança de comportamento. Aí ela ficava sem dívida, mas também sem reserva.”
O ciclo que se repetia
O especialista chamou atenção para um padrão já observado em programas anteriores de renegociação: a reincidência. “Sem educação financeira, a tendência era repetir o ciclo. O crédito continuava sendo utilizado como extensão da renda, especialmente em despesas do dia a dia. Isso mostrava que o problema era estrutural.”
Ele também alertou para o impacto psicológico dessas iniciativas. “Existia uma falsa sensação de solução definitiva. A pessoa acreditava que havia resolvido a vida financeira, quando, na verdade, apenas havia adiado o problema.”
Apesar das críticas, Domingos reconheceu que o programa poderia ser uma oportunidade importante, desde que utilizado com consciência. “Fazia sentido para quem tinha dívidas com juros muito altos, renda comprometida e pouca margem de negociação. Mas isso precisava vir acompanhado de um plano claro de reorganização financeira.”
O “Desenrola 2.0” surgiu como uma tentativa relevante de aliviar o peso das dívidas no orçamento das famílias brasileiras. No entanto, especialistas reforçaram que, sem atacar a causa do problema, o país poderia continuar preso a um ciclo de endividamento recorrente.
“O Brasil precisava ir além da renegociação. Precisava investir na educação do comportamento financeiro. Sem isso, continuaríamos tratando os sintomas, enquanto a causa permaneceria”, concluiu Domingos.
