Enquanto o Brasil discute a aceleração da educação em tempo integral com o novo Plano Nacional de Educação (PNE), Minas Gerais apresenta um cenário incomum de descontinuidade. Dados do Censo Escolar 2025 revelam que o estado, que já esteve mais avançado na implementação do Ensino Médio Integral (EMI), sofreu uma queda expressiva na oferta de vagas e escolas nos últimos três anos, sinalizando uma perda de prioridade política que pode reduzir as oportunidades para o futuro dos jovens mineiros.
Em 2022, Minas Gerais possuía 50,4% de suas escolas oferecendo o modelo integral. Em 2025, esse número caiu para 31,6%. O mesmo padrão de queda é observado nas matrículas: o estado saiu de um patamar de 21,4% dos alunos em tempo integral para apenas 15,6% no mesmo período. O movimento de Minas Gerais caminha na contramão da tendência nacional e acende um alerta sobre o aumento das desigualdades educacionais dentro do estado.
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Evolução do EMI em Minas Gerais
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2022
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2023
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2024
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2025
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Meta até 2031
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Meta até 2036
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Oferta de Escolas (EMI)
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50,40%
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29,50%
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32,20%
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31,60%
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50%
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65%
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Matrículas (EMI)
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21,40%
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13,20%
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14,40%
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15,60%
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35%
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50%
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O Ensino Médio Integral no Brasil
Em todo o país, o Ensino Médio Integral tem se consolidado cada vez mais como uma das políticas mais potentes de redução das desigualdades no país, entregando uma diminuição no abandono escolar e, consequentemente, o aumento de perspectivas mais positivas e novas chances para os jovens brasileiros sonharem mais alto sobre o seu futuro. Isso porque, mais do que ampliar o tempo em sala de aula, o EMI promove uma formação focada no protagonismo juvenil e no projeto de vida, com resultados sociais comprovados que mostram mais tempo de estudo e mais proficiência (aprendizado) que impactam diretamente em maior acesso ao Ensino Superior e, consequentemente, em maiores rendas no futuro.
Estudos e análises recentes mostram os benefícios que já estão sendo registrados ao longo dos últimos anos:
- Redução da violência: No estado de Pernambuco, o EMI reduziu em até 50% os homicídios de jovens de 15 a 19 anos em cidades que têm divisa com outros estados; O impacto é de 30 a 40% a menos nas taxas de homicídios ao longo de 10 anos.
- Saúde reprodutiva e equidade de gênero: A cada mil jovens no EMI, há 114 adolescentes grávidas a menos; +737 mulheres no ensino superior e +529 mulheres empregadas.
- Acesso ao mercado de trabalho: Um aumento de 10% nas matrículas no Ensino Médio Integral (EMI) no município gera, em média, um aumento de 3% nos empregos no setor formal do município, com impacto racial relevante: para estudantes pretos, pardos e indígenas, o efeito na geração de empregos é três vezes maior (4,5%) em comparação aos estudantes brancos e amarelos (1,5%). Em estados como o Ceará, o impacto da ampliação de matrículas EMI é ainda mais elevado, com uma expansão de até 9,8% nas admissões formais.
- Retorno x investimento: O benefício socioeconômico da política é seis vezes maior que o custo. Além disso, estima-se que o valor da remuneração recebida ao longo de toda vida produtiva de um jovem estudante que tenha acesso ao EMI será R$64 mil a mais em relação ao que ele receberia caso não tivesse tido acesso à educação integral.
O novo PNE e o desafio da retomada em Minas Gerais
Recentemente, foi aprovado o novo Plano Nacional de Educação (PNE), que norteará as políticas públicas pelos próximos 10 anos. O plano define o ensino integral como política estruturante e estabelece metas claras para a universalização da oferta. Para Minas Gerais, o desafio da próxima década não é apenas crescer, mas recuperar o espaço perdido e reverter a lógica de descontinuidade que se instalou na rede pública.
Para retomar o crescimento, Minas Gerais pode se espelhar em estados que mantiveram a constância política, como Pernambuco (63% de oferta e berço da política) e Ceará (75% de oferta), ou no Piauí, que alcançou 100% de oferta em apenas quatro anos através de uma priorização estratégica. O exemplo dessas redes mostra que a expansão do EMI depende, acima de tudo, de decisão política, e que entrará nos debates governamentais em ano eleitoral.

