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Aspirina ganha espaço na oncologia e pode ajudar a conter avanço do câncer
Evidências científicas avançam e indicam possível papel do medicamento na prevenção e progressão da doença
Publicado em 26/04/2026 10:30
Notícias Gerais


Um medicamento centenário, amplamente utilizado para dor e prevenção cardiovascular, pode estar assumindo um novo papel na medicina: o de aliado no combate ao câncer. Evidências acumuladas nas últimas décadas indicam que a aspirina pode reduzir não apenas o risco de desenvolvimento de alguns tumores, como também a disseminação da doença pelo organismo.
A relação entre aspirina e câncer não é nova. Desde os anos 1970, pesquisadores observam sinais de que o medicamento poderia interferir na progressão tumoral. Mais recentemente, análises com dados de longo prazo e ensaios clínicos reforçaram essa hipótese, especialmente em câncer colorretal.
Um dos marcos foi o acompanhamento de pacientes com síndrome de Lynch, condição genética que aumenta significativamente o risco de câncer intestinal. Em um estudo randomizado controlado considerado histórico, publicado em 2020 e liderado pelo professor de genética clínica John Burn, pesquisadores acompanharam 861 pacientes ao longo de uma década.
Os resultados mostraram que o uso diário de 600 mg de aspirina por pelo menos dois anos foi capaz de reduzir pela metade o risco de câncer colorretal nesses indivíduos.

A investigação avançou. Em um segundo estudo conduzido pela mesma equipe, ainda em processo de revisão por pares, os achados iniciais indicam que doses significativamente menores,entre 75 mg e 100 mg por dia, podem apresentar eficácia semelhante ou até superior, com potencial vantagem em termos de tolerabilidade e segurança.

Esses dados ajudam a explicar por que a estratégia vem sendo incorporada em diretrizes clínicas para grupos de alto risco em alguns países, ainda que sob rigoroso acompanhamento médico.
 

Nova peça no quebra-cabeça: o sistema imunológico
 

Um avanço importante veio de um estudo publicado em 2025, na revista Nature, que investigou como a aspirina atua na prevenção de metástases. "Esse estudo, publicado na Nature, uma das revistas mais importantes na área da medicina, aborda o mecanismo de ação da aspirina em relação à inibição das células T. Essa descoberta sugere que a aspirina pode se tornar um componente ou uma terapia útil para prevenir metástases em pacientes com câncer", explica Tatiane Montella, oncologista da Oncoclínicas.

Segundo a pesquisa, a aspirina interfere na produção de uma substância chamada tromboxano A2, relacionada à coagulação sanguínea. Ao inibir esse fator, o medicamento pode favorecer a atuação das células T, fundamentais na defesa do organismo, contra células tumorais que tentam se espalhar. "Como um breve histórico e um dos motivos pelos quais esse estudo foi desenvolvido, temos alguns estudos prévios, incluindo ensaios clínicos randomizados em humanos, que avaliaram o papel da aspirina em pacientes diagnosticados com neoplasias. Esses estudos demonstraram, em alguns casos, resultados positivos da aspirina na prevenção de metástases em pacientes com câncer".
O controle da metástase segue como um dos maiores desafios no tratamento oncológico. Mesmo em estágios iniciais, há risco de disseminação da doença ao longo do tempo. “Mesmo em pacientes com a doença em estágio inicial, onde terapias curativas, como a cirurgia, são estabelecidas, ainda há o risco de que eles desenvolvam metástase ao longo de sua jornada. Portanto, a metástase é, de fato, um grande gargalo e um dos principais desafios enfrentados por pacientes com diagnóstico oncológico", afirma.
O estudo experimental também reforçou o papel do sistema imunológico nesse processo. "Esse foi um estudo realizado em laboratório com animais, com ratos, em que se avaliou qual seria exatamente o mecanismo de ação da aspirina nessa promoção, nessa prevenção das metástases. O que a gente sabe é que o sistema imune está muito relacionado à oncogênese, ou seja, a essa proliferação celular inadequada. O sistema imune tem um papel natural de inibir que essas células evoluam”, avalia a oncologista.
Ela complementa, ao detalhar como esse mecanismo atua diretamente na resposta imunológica do organismo: "Com a aspirina, o que os autores do estudo comprovaram foi que essa inibição que a aspirina faz, e uma determinada proteína, que é a COX-2, permite que a célula T, que é a nossa célula de defesa, a célula do sistema imune, fique mais ativa para combater possíveis metástases".
 

Evidências crescentes, mas ainda com limitações
 

Apesar do avanço, a aplicação clínica da aspirina na oncologia ainda enfrenta desafios. Estudos com populações específicas, como o ensaio com pacientes com síndrome de Lynch liderado por John Burn e pesquisas mais recentes com pacientes já diagnosticados com câncer colorretal, têm mostrado resultados promissores, incluindo redução de incidência e de recorrência da doença após cirurgia.
Ao mesmo tempo, grandes ensaios clínicos em andamento buscam entender se esses benefícios podem ser ampliados para outros tipos de câncer, como mama e próstata. Ainda assim, há lacunas importantes. "Apesar desse grande avanço no entendimento do mecanismo de ação da aspirina em relação ao sistema imune e a oncologia, algumas lacunas ainda precisam ser preenchidas. Por exemplo, com quais tipos de tumor esse tipo de tratamento deve ser empregado, em que dosagem e quais são os pacientes que, de fato, se beneficiam desse tipo de tratamento".
Mesmo sendo um medicamento acessível e amplamente conhecido, a aspirina não é isenta de riscos. E esse é um ponto central no debate atual. "É importante lembrar que, por um lado, a aspirina, um medicamento de uso comum, de fácil acesso e baixo custo, pode trazer benefícios. Por outro lado, é uma medicação que exige recomendação médica, pois está associada a efeitos colaterais. Um dos efeitos mais comuns é o sangramento, especialmente no trato gastrointestinal, que pode variar em gravidade, podendo, inclusive, ser fatal. Portanto, é muito importante sabermos que, mesmo com os resultados promissores vindos desse estudo, é crucial destacar que a aspirina deve ser usada, em qualquer situação, com recomendação médica", resume Tatiane Montella.
 

Um futuro promissor e ainda em investigação
 

Com estudos em andamento e novas descobertas sobre seu mecanismo de ação, a aspirina pode consolidar seu espaço como uma ferramenta complementar no tratamento do câncer. Por ora, especialistas mantêm uma posição cautelosa: os benefícios são consistentes em grupos específicos, mas ainda não justificam o uso indiscriminado na população geral.
O que antes era apenas um analgésico pode, aos poucos, se tornar parte de estratégias mais complexas na oncologia, desde que guiado por evidência científica e acompanhamento médico rigoroso.

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