Ouvir rádio

Pausar rádio

Offline
Saneamento aparece nos planos de governo, mas metas concretas ainda são minoria nas eleições de 2026
Estudo do Instituto Trata Brasil e da GO Associados avaliou 62 candidaturas competitivas e aponta que apenas 21% dos planos contemplam os quatro eixos analisados
Por Luciana de Oliveira Archete
Publicado em 06/10/2026 17:00
Notícias Gerais

O saneamento básico ganhou espaço nos planos de governo das candidaturas competitivas às eleições estaduais de 2026, mas a presença do tema ainda não significa, necessariamente, a apresentação de compromissos detalhados e verificáveis. É o que aponta o “Estudo sobre as Eleições de 2026: o Comprometimento dos Candidatos a Governador com o Saneamento”, elaborado pelo Instituto Trata Brasil com apoio da GO Associados.

O levantamento avaliou 62 candidaturas consideradas competitivas nos 26 estados e no Distrito Federal. A análise considerou exclusivamente o conteúdo dos planos de governo disponíveis até 15 de setembro de 2026, sem avaliar a viabilidade financeira das propostas, o histórico administrativo dos candidatos ou a possibilidade de cumprimento dos compromissos apresentados.

Segundo o estudo, 44 dos 62 planos analisados, o equivalente a 71% da amostra, apresentaram uma abordagem classificada como “transversal”. Isso significa que os documentos contemplaram dois ou três dos quatro eixos estabelecidos pela metodologia.

Outros 13 planos, correspondentes a 21% da amostra, foram classificados como “abrangentes”, por contemplarem os quatro eixos considerados na avaliação, incluindo pelo menos uma meta tangível relacionada ao abastecimento de água, ao esgotamento sanitário ou à drenagem urbana.

Já cinco planos, ou 8% da amostra, tiveram abordagem considerada “superficial”, por desenvolverem apenas um dos eixos avaliados. O estudo ressalta que a classificação não representa avaliação política ou eleitoral das candidaturas, mas apenas mede a presença e a abrangência do saneamento nos programas apresentados.

Entre as propostas analisadas, a universalização foi a mais frequente. De acordo com o levantamento, 54 dos 62 planos, ou 87%, mencionaram o tema. A drenagem urbana apareceu em 47 documentos, correspondendo a 76% da amostra.

O saneamento rural também teve presença significativa, sendo citado em 41 planos, ou 66%. A mobilização de investimentos estaduais para acelerar a universalização apareceu em 36 documentos, enquanto a regionalização do saneamento foi identificada em 28.

Por outro lado, os aspectos relacionados à governança de dados e informações tiveram presença menor. A proposta foi encontrada em 15 dos 62 planos, equivalente a 24% da amostra. O compromisso com metas tangíveis apareceu em 16 documentos, ou 26%.

Para o estudo, a diferença mostra que o saneamento está presente no debate eleitoral, mas ainda há espaço para ampliar o detalhamento dos programas, especialmente no estabelecimento de objetivos concretos e mecanismos de acompanhamento.

O levantamento também cruzou as informações dos planos de governo com indicadores do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), referentes a 2024. Foram considerados dados sobre atendimento com rede de abastecimento de água, coleta de esgoto, tratamento de esgoto e investimentos por habitante.

Os pesquisadores não identificaram uma relação estatisticamente significativa entre o grau de comprometimento dos planos e a situação do saneamento nos estados. Em outras palavras, estados com maiores déficits de atendimento não apresentaram, de forma sistemática, planos mais abrangentes sobre o tema.

No recorte regional, o Nordeste registrou a maior média de comprometimento dos planos analisados, com 2,95 pontos, seguido pelo Sul, com 2,83, e pelo Sudeste, com 2,78. Norte e Centro-Oeste apresentaram médias de 2,71 e 2,70, respectivamente.

Os próprios autores alertam, porém, que a comparação regional deve ser interpretada com cautela, já que são apenas cinco unidades de análise, uma por macrorregião, o que não permite estabelecer relações causais ou generalizações estatísticas.

Na análise por estados, Pernambuco foi o único estado em que os dois planos incluídos na amostra receberam classificação “abrangente”. O estudo identificou ainda 13 planos com essa classificação, distribuídos por 12 unidades da Federação.

O Nordeste concentrou seis planos abrangentes entre as 20 candidaturas selecionadas na região. No Sudeste foram identificados dois casos entre nove candidaturas, enquanto Norte, Sul e Centro-Oeste tiveram três, um e um caso, respectivamente.

Outro dado apresentado pelo estudo diz respeito aos governadores que buscam a reeleição. Entre os nove candidatos nessa condição incluídos na amostra, quatro apresentaram planos classificados como abrangentes, enquanto, entre as demais 53 candidaturas analisadas, oito receberam a mesma classificação.

O estudo destaca que essa diferença é descritiva e não permite estabelecer relação de causa e efeito. A avaliação também não considera a capacidade de execução dos candidatos ou a efetiva implementação das propostas após as eleições.

Os dados do SINISA ajudam a dimensionar o desafio enfrentado pelo país. Segundo o levantamento, em 2024, 84,1% da população brasileira tinha acesso ao abastecimento de água, enquanto 56,7% contava com coleta de esgoto. Do volume de água consumido, 51,8% era convertido em esgoto tratado.

Para o Instituto Trata Brasil e a GO Associados, os números reforçam a importância de acompanhar não apenas a presença do saneamento nos planos de governo, mas também a existência de compromissos objetivos que possam ser monitorados ao longo dos mandatos.

O estudo conclui que a agenda do saneamento básico está presente nos programas eleitorais de 2026, porém com diferentes níveis de profundidade. A maior parte das candidaturas aborda o tema de maneira transversal, enquanto pouco mais de um quinto apresenta compromissos que abrangem todos os eixos avaliados.

A análise também ressalta que a classificação utilizada não constitui recomendação eleitoral nem avaliação da qualidade geral das candidaturas. O objetivo é tornar comparável o espaço destinado ao saneamento nos planos de governo e oferecer uma referência para o acompanhamento dos compromissos assumidos pelos candidatos.

Fonte: Instituto Trata Brasil e GO Associados, “Estudo sobre as Eleições de 2026: o Comprometimento dos Candidatos a Governador com o Saneamento”, publicado em 21 de setembro de 2026. Dados de saneamento: SINISA 2024; planos de governo: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), considerando documentos disponíveis até 15 de setembro de 2026.

Comentários