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Asma na vida adulta
iagnósticos tardios, sintomas ignorados e subestimação da condição comprometem a qualidade de vida de milhões de brasileiros adultos
Publicado em 04/07/2026 08:00
Notícias Gerais

Há cerca de 20 milhões de brasileiros convivendo com a asma, entre crianças e adultos, segundo o Ministério da Saúde, e a doença está entre as condições respiratórias crônicas mais frequentes atendidas pelo Sistema Único de Saúde. Apesar de sua alta prevalência, ainda persiste um equívoco comum: a ideia de que a asma é uma condição exclusivamente infantil. Na prática, ela pode surgir em qualquer fase da vida, inclusive na idade adulta, permanecer sem diagnóstico por anos, comprometer significativamente a qualidade de vida dos pacientes e causar a morte nas formas mais graves.
 

O desafio se torna ainda mais preocupante quando se observa o controle da doença. Dados de um inquérito nacional brasileiro mostram que apenas 12,3% dos pacientes diagnosticados mantêm a asma efetivamente controlada. A maioria convive com sintomas persistentes: 51,2% apresentam asma não controlada e 36,4% têm controle apenas parcial da condição.
 

A asma que aparece depois dos 18 anos

Existe um fenótipo específico chamado asma de início tardio: aquela que ocorre pela primeira vez na vida adulta e cujos pacientes tendem a ser mais refratários ao tratamento com corticosteróides. Essa modalidade é frequentemente negligenciada justamente porque contraria a percepção mais difundida sobre a doença. "A asma de início tardio ainda surpreende muitos pacientes, e, infelizmente, alguns profissionais de saúde. Um adulto de 40 anos que começa a tossir à noite ou sente aperto no peito ao subir escadas raramente pensa em asma como primeira hipótese. Esse atraso no reconhecimento da doença tem consequências diretas na progressão do quadro, na qualidade de vida e aumentando o risco de internações hospitalares", explica o Dr. Antonio Pinho, médico Alergologista e professor da Faculdade São Leopoldo Mandic.
 

A asma é subdiagnosticada em adultos mais velhos por diversas razões: menor percepção da falta de ar, interpretação dos sintomas como consequência natural do envelhecimento e a presença de outras doenças associadas, especialmente as doenças do coração, que mascaram o quadro clínico. Em adultos em geral, o diagnóstico também chega tarde porque os sintomas de tosse frequente, chiado no peito e falta de ar levam muitos pacientes a receberem erroneamente o diagnóstico de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, que está associada ao tabagismo.
 

Há ainda um fator ocupacional relevante: entre 5% e 20% dos novos casos de asma de início tardio podem ser atribuídos a exposições no ambiente de trabalho, e o diagnóstico precoce é essencial, pois a exposição persistente está associada a pior prognóstico. A tosse seca persistente, especialmente à noite, o aperto no peito ao acordar e a falta de ar durante esforços físicos são sinais que muitas vezes são atribuídos ao estresse, ao sedentarismo ou à "falta de condicionamento físico". A asma que se apresenta apenas com tosse como sintoma isolado dificulta ainda mais o diagnóstico diferencial com outras causas de tosse crônica, o que atrasa a busca por atendimento especializado e início de tratamento adequado.

 

O impacto que vai além da respiração

Conviver com asma sem controle adequado significa muito mais do que episódios de falta de ar: são noites mal dormidas, restrições a atividades físicas, limitações no ambiente de trabalho, afastamentos e um estado de alerta constante que compromete também a saúde mental. A vasta maioria das mortes por asma é evitável com o manejo apropriado, mas falhas no acesso a medicações e no manejo clínico continuam a custar vidas.

O especialista aponta três frentes críticas para quem convive com asma na vida adulta:

  • Diagnóstico objetivo: a espirometria é o exame padrão para confirmar a obstrução variável das vias aéreas, característica da asma. Sem ela, o diagnóstico fica sujeito a interpretações que podem resultar em anos de tratamento inadequado. Contudo, fora da crise esse exame pode ser normal e sua repetição em um período no qual o paciente está mais sintomático pode ajudar, além disso a medida do Pico de Fluxo Expiratório seriada demonstrando um importante variabilidade do fluxo mensurado são especialmente uteis na asma ocupacional.
  • Acompanhamento contínuo: a asma é uma doença crônica, e especialmente nos adultos, pode não ter cura, mas com tratamento adequado tem controle. O protocolo clínico atualizado do SUS reforça que a asma não deve ser tratada apenas com broncodilatador de alívio: o tratamento de manutenção com corticoides inalatórios combinados com broncodilatadores modernos de ação prolongada é mais que fundamental do manejo, pois diminui internações e mortes pela doença.
  • Educação sobre a doença: a falta de conscientização e de capacitação adequada contribui significativamente para o subdiagnóstico e tratamento inadequado. Tanto pacientes quanto familiares precisam reconhecer os sinais de agravamento e entender que asma controlada não é asma curada. 

"Interromper o tratamento ao se sentir bem é um dos erros mais comuns entre adultos asmáticos. A doença não desapareceu, ela está controlada. E manter esse controle depende de adesão ao tratamento, acompanhamento regular com um especialista e atenção aos gatilhos do dia a dia. A asma bem tratada não limita ninguém, inclusive vários medalhistas de ouro em Olimpíadas eram asmáticos ", finaliza o Dr. Pinho.


 

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