O Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Triângulo Mineiro (HC-UFTM), vinculado à Rede HU Brasil, referência no atendimento dos casos graves de tuberculose (que necessitam de internação) nos 27 municípios da macrorregião Triângulo Sul, registrou um aumento no número de notificações da doença nos últimos anos. Em 2023, foram registrados 23 casos. Já em 2024, foram 47, um aumento de 104,3%. Considerando os casos registrados nos últimos cinco anos (2021 a 2025), o crescimento é de 135%. Até abril deste ano (2026), 19 novos casos foram notificados.
“Esse número precisa ser interpretado com cuidado. Essas notificações não representam apenas a situação de Uberaba ou apenas uma estatística hospitalar isolada. Esse dado sinaliza a carga regional de casos que exigem maior complexidade assistencial. É um alerta importante para a rede de saúde, porque mostra que a tuberculose continua sendo uma doença atual, presente e potencialmente grave. Também é importante lembrar que a internação por tuberculose geralmente reflete maior gravidade ou maior complexidade”, explica Rodrigo Molina, médico infectologista no HC-UFTM.
A maioria dos casos de tuberculose deve ser diagnosticada e tratada na atenção primária e na rede ambulatorial. A internação fica reservada para situações específicas: formas graves (como a tuberculose meningoencefálica), pacientes com estado geral muito comprometido, intolerância importante aos medicamentos, necessidade de investigação diagnóstica hospitalar, intercorrências clínicas ou cirúrgicas, suspeita de resistência com gravidade, ou situações sociais em que não seja possível garantir o tratamento com segurança fora do hospital.
O médico destaca que o paciente não precisa ficar internado apenas por ter tuberculose, desde que esteja clinicamente estável, consiga usar os medicamentos, tenha condições de acompanhamento e não apresente complicações. É importante reforçar que internar não é a regra. A regra é diagnosticar precocemente, tratar corretamente e acompanhar de perto na rede de saúde. O hospital entra quando há gravidade clínica, dificuldade de manejo ou necessidade de investigação mais especializada.
Tipos de tuberculose
No Brasil, mais de 84 mil casos novos são registrados por ano, ocorrendo cerca de 6 mil mortes anuais, segundo o Ministério da Saúde. “Além da tuberculose pulmonar, que é a forma mais conhecida e a principal responsável pela transmissão, podemos ter tuberculose pleural, ganglionar, óssea, geniturinária, abdominal e pericárdica, além de meningoencefálica e miliar, que são formas particularmente graves e exigem atenção imediata”, pontua o infectologista.
A tuberculose miliar e a meníngea podem ser evitadas por meio da vacina BCG (bacilo Calmette-Guérin), ofertada no Sistema Único de Saúde (SUS). “A BCG não impede, de forma plena, que a pessoa tenha tuberculose pulmonar ao longo da vida. Então, quando vemos aumento de casos, não podemos atribuir apenas à queda de vacinação. Pode haver impacto da cobertura vacinal, especialmente para formas graves em crianças, mas o crescimento dos casos em geral envolve também maior circulação da doença, diagnóstico mais ativo, atraso no reconhecimento dos sintomas, abandono de tratamento, vulnerabilidade social e coinfecções, como HIV”, alerta Molina.
A tuberculose pode se apresentar de forma diferente em pessoas com imunidade baixa, como pessoas vivendo com HIV ou AIDS, pacientes em tratamento oncológico, transplantados, usuários de imunobiológicos ou corticoides, além de pacientes com outras condições que reduzem a resposta imunológica. A forma pulmonar continua sendo muito importante, mas há maior risco de formas extrapulmonares e disseminadas. Isso acontece porque o organismo tem mais dificuldade de conter o bacilo no pulmão, permitindo que ele se espalhe para outros órgãos.
Tuberculose multidroga-resistente
O HC-UFTM é cadastrado para tratamento da tuberculose multidroga-resistente, recebendo pacientes de toda a macrorregião quando há suspeita ou confirmação desse tipo da doença, quando existe necessidade de tratamento especializado, ou quando os municípios têm dúvidas em relação ao diagnóstico, à interpretação dos exames ou à melhor conduta terapêutica. A tuberculose multidroga-resistente é uma das áreas em que o acompanhamento especializado faz muita diferença no desfecho.
“A tuberculose multidroga-resistente é uma forma da doença em que o bacilo apresenta resistência aos principais medicamentos do tratamento convencional, especialmente rifampicina e isoniazida. Por isso, o manejo é bem mais complexo. Não é simplesmente trocar um remédio por outro. É necessário avaliar o histórico do paciente, tratamentos anteriores, exames de sensibilidade, possíveis efeitos adversos e condições clínicas associadas”, esclarece Molina, que é também o médico de referência para o tratamento da tuberculose multidroga-resistente.
Na prática, o tratamento deixa de ser aquele esquema básico e padronizado de seis meses e passa a exigir uma avaliação individualizada, com uso de medicamentos específicos, acompanhamento mais próximo e monitoramento rigoroso. São casos que precisam ser conduzidos em serviço de referência, com integração entre hospital, ambulatório, vigilância epidemiológica, atenção básica e os municípios de origem. O HC-UFTM mantém uma linha de cuidado muito qualificada para esses pacientes, com acompanhamento técnico, vigilância, monitoramento dos efeitos adversos e articulação com a rede.
“Tuberculose multidroga-resistente é uma condição difícil, com tratamento prolongado, efeitos adversos e risco maior de abandono ou falha terapêutica. Muitas vezes, o paciente desiste do tratamento e acaba abandonando. Nesse caso, lançamos mão do serviço social para fazer a busca do paciente, a fim de que ele possa voltar ao tratamento”, comenta Rodrigo.
Aumento de notificações é multifatorial
Para o especialista, o aumento de notificações no HC-UFTM provavelmente é multifatorial. “A tuberculose é uma doença muito ligada a condições sociais, vulnerabilidade, diagnóstico tardio, dificuldade de acesso aos serviços de saúde e, também, à presença de pessoas com maior risco de adoecimento, como pacientes imunossuprimidos, pessoas vivendo com HIV, pessoas com diabetes, usuários de álcool e outras drogas, pessoas em situação de rua ou privadas de liberdade. Mais do que um número isolado, o importante é que seguimos perseguindo o mesmo objetivo: diagnóstico rápido, tratamento adequado, adesão do paciente e cura”, finaliza.