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Consenso internacional estabelece bases para cirurgia minimamente invasiva no câncer de pâncreas
Publicado em 21/04/2026 17:00
Notícias Gerais

Especialistas de 17 países se reuniram em São Paulo e construíram o primeiro consenso internacional focado especificamente no uso da cirurgia minimamente invasiva (laparoscopia e robótica) para o tratamento do câncer de pâncreas. Publicado em fevereiro de 2026 no HPB Journal, o documento reúne recomendações baseadas em evidências científicas recentes e reforça que a adoção dessas técnicas deve ser criteriosa, centralizada em centros de alta complexidade e conduzida por equipes altamente experientes

Um grupo de 52 cirurgiões especialistas em pâncreas, com atuação em seis continentes, coordenado pelo cirurgião oncológico brasileiro Felipe Coimbra, definiu diretrizes inéditas para o uso seguro e responsável da cirurgia minimamente invasiva no tratamento do câncer de pâncreas, uma das neoplasias mais letais da atualidade. O consenso, resultado do Congresso PANCREAS 2025: Pancreatic Cancer Research, Education & Assistance Symposium, realizado em setembro do ano passado em São Paulo, foi publicado na edição de fevereiro de 2026 do HPB Journal e marca um avanço importante ao estabelecer parâmetros para indicação, treinamento e implementação dessas técnicas em Oncologia.

Durante décadas, a cirurgia do pâncreas foi considerada um dos maiores desafios da medicina moderna. Localizado profundamente no abdômen, cercado por grandes vasos sanguíneos e estruturas vitais, o pâncreas é um órgão que exige procedimentos de extrema precisão, pois há alto risco de complicações. Paralelamente, o câncer de pâncreas segue como uma doença de difícil descoberta, frequentemente diagnosticada em fases avançadas e, desta forma, associada a baixas taxas de sobrevida.

Nesse cenário, o avanço das técnicas minimamente invasivas, que utilizam pequenas incisões, câmeras e instrumentos especiais, incluindo plataformas robóticas, sempre foi visto com cautela. Embora amplamente adotadas em outras áreas da cirurgia, sua aplicação no câncer de pâncreas permanecia cercada de dúvidas, sobretudo em relação à segurança, aos resultados oncológicos e à curva de aprendizado necessária.

Foi para enfrentar essas questões que nasceu o Consenso Internacional de São Paulo sobre Cirurgia Minimamente Invasiva do Pâncreas para o Câncer, o primeiro documento do gênero focado em tumores malignos, a discutir de forma estruturada, específica e baseada em evidências científicas o papel dessas técnicas no tratamento oncológico da doença.

“Esse é o primeiro consenso que discute de forma organizada a cirurgia minimamente invasiva especificamente para o câncer de pâncreas tanto do tipo adenocarcinoma quanto tumores neuroendócrinos, os dois tipos mais comuns. Estamos falando de um procedimento de altíssima complexidade, que precisa unir técnica cirúrgica, resultado oncológico e segurança para o paciente”, afirma o cirurgião oncológico Felipe José Fernández Coimbra, coordenador do consenso, secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência em Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo Cancer Center.

Um consenso construído por especialistas de todo o mundo

O documento é resultado de um processo rigoroso de construção científica. Ao longo de três rodadas de discussão estruturada, conhecidas como método Delphi, os especialistas analisaram mais de 2.500 estudos publicados nos últimos dez anos. Desses, 185 trabalhos foram selecionados por apresentarem dados relevantes sobre resultados cirúrgicos, segurança, complicações e desfechos oncológicos.

Os participantes, com mediana de 22 anos de experiência em cirurgia pancreática, representaram 17 países da América do Norte e do Sul, Europa, Ásia, África e Oceania. O objetivo não foi apontar superioridade entre técnicas abertas ou minimamente invasivas, mas estabelecer em quais situações essas abordagens podem ser consideradas equivalentes e, principalmente, quando não devem ser utilizadas.

O consenso final aprovou 22 recomendações, com concordância superior a 90% entre os especialistas, abordando desde a retirada da porção esquerda do pâncreas até cirurgias mais complexas, como a gastro-duodeno-pancreatectomia, além de orientações sobre treinamento, infraestrutura hospitalar e acompanhamento de resultados. As recomendações centrais do Consenso Internacional de São Paulo evidenciam que a cirurgia minimamente invasiva no câncer de pâncreas representa um avanço relevante, mas que deve ser aplicada com extremo rigor.

“A cirurgia do pâncreas é uma das mais complexas da oncologia. Além da técnica, ela envolve um conjunto de fatores que impactam na sobrevida e no risco de recorrência da doença. Por isso, precisa ser realizada por equipes experientes, em hospitais com infraestrutura completa para tratar complicações e com suporte de radiologia intervencionista, patologia e outras especialidades. Isso aumenta a segurança e reduz a mortalidade”, reforça Felipe Coimbra.

Quando a técnica pode ser utilizada?

De acordo com o documento, há evidências consistentes de que, em tumores localizados na cauda ou no corpo do pâncreas, a cirurgia minimamente invasiva pode alcançar resultados oncológicos semelhantes aos da cirurgia aberta, desde que realizada por equipes experientes. Isso inclui taxas adequadas de retirada completa do tumor e número suficiente de linfonodos analisados, fatores essenciais para o controle da doença.

Entre os potenciais benefícios observados estão menor perda de sangue durante a cirurgia e recuperação funcional mais rápida, menos dor, infecção e hérnias de parede abdominal sem prejuízo da segurança. Ainda assim, os autores ressaltam que os dados de longo prazo, como sobrevida em cinco anos, seguem sendo acompanhados. Nas cirurgias mais complexas, como aquelas realizadas na cabeça do pâncreas, o consenso é ainda mais cauteloso. Embora estudos indiquem que os resultados podem ser comparáveis em centros especializados, a curva de aprendizado é longa, e a adoção indiscriminada fora destes centros pode aumentar o risco de complicações graves. “A estrutura para tratar possíveis intercorrências na recuperação são fundamentais para a segurança e o risco de complicações graves aos pacientes” afirma o cirurgião brasileiro.

Treinamento estruturado e acompanhamento contínuo

Outro ponto-chave do consenso é a ênfase na formação dos cirurgiões. O documento recomenda que programas de cirurgia minimamente invasiva do pâncreas só sejam iniciados por profissionais já experientes em cirurgia pancreática aberta e em técnicas minimamente invasivas em geral.

Além disso, o treinamento deve incluir simulações, acompanhamento por mentores experientes e avaliação contínua de resultados. O consenso também defende que hospitais mantenham bancos de dados próprios ou participem de registros nacionais e internacionais, permitindo monitorar desfechos e corrigir rotas sempre que necessário.

Para os especialistas, a tecnologia por si só não garante melhores resultados. Plataformas robóticas, imagens tridimensionais e recursos de inteligência artificial podem ajudar, mas não substituem a experiência, julgamento clínico e a estrutura hospitalar adequada.

Impacto para pacientes e sistemas de saúde

Embora o consenso seja direcionado principalmente a profissionais e gestores de saúde, seus reflexos alcançam diretamente os pacientes. Ao estabelecer critérios claros para a adoção da cirurgia minimamente invasiva, o documento ajuda a evitar indicações inadequadas e expectativas irreais.

Os autores destacam que muitos pacientes associam automaticamente cirurgia robótica e outras modalidades minimamente invasivas a melhores resultados, o que nem sempre é verdade. A indicação para cada caso deve ser minuciosa e nem sempre a cirurgia minimamente invasiva deve ser realizada. Por isso, a decisão deve ser compartilhada, com explicações claras sobre riscos, benefícios e alternativas.

No contexto de países de renda média, como o Brasil, o consenso também chama atenção para a necessidade de equilíbrio entre inovação e sustentabilidade. Antes de investir em novas tecnologias, é fundamental garantir o acesso a cuidados básicos de alta qualidade, como leitos de UTI, equipes treinadas e capacidade de manejar complicações pós-operatórias.

Um marco para a cirurgia oncológica

Além de ser um conjunto de recomendações que serão utilizadas por cirurgiões especialistas do mundo inteiro como documento de referências na cirurgia do câncer de pâncreas, o Consenso Internacional de São Paulo representa um marco na cirurgia oncológica. Ele consolida evidências, reconhece limites e aponta caminhos para o avanço responsável da técnica, sempre com o foco na segurança e no benefício real ao paciente. De acordo com Felipe Coimbra, ao reunir especialistas de diferentes realidades, países e sistemas de saúde, o documento reforça a importância da colaboração internacional para enfrentar um dos cânceres mais desafiadores da atualidade. Reforça também que, no câncer de pâncreas, a inovação só faz sentido quando caminha lado a lado com experiência, ciência e cuidado.

Artigo científico

Tustumi F, Calthorpe L, Fotoohi N, Ribeiro TC, Stolzemburg LCP, Bettiati Junior AL, Gonçalves CA, de Almeida APCB, Giordano AMG, de Godoy AL, Altenfelder D, Nicioli J, Guimarães AC, Requejo AS, Diniz AL, Oliveira AF, Wei AC, de Moricz A, Montagnini AL, Visser BC, Chan CHF, de Oliveira CVC, Ferrone CR, Asbun D, Jonas E, Ramos EJB, Nickel F, Maia FKO, Apodaca-Torrez FR, Barreto SG, Hewitt DB, de Farias IC, Frigerio I, Jang JY, Anghinoni M, Boff MF, Belotto M, Giménez ME, Nakamura M, Katz MHG, Hogg ME, Kendrick ML, Luyer MDP, Abu Hilal M, Ikoma N, Zyromski NJ, Jarufe N, Guevara OA, Mazza O, Polanco PM, Amaral PCG, Pinheiro RN, Jeyarajah DR, Gaujoux S, Shrikhande SV, Torres SM, Siriwardena AK, Kent TS, Hackert T, Pawlik TM, Andraus W, Boggi U, Asbun HJ, Alseidi A, Coimbra FJF. The São Paulo International Consensus on Minimally Invasive Pancreatic Surgery for Cancer. HPB (Oxford). 2026 Feb;28(2):105-118.

Disponível em https://www.hpbonline.org/article/S1365-182X(25)01712-5/abstract

Sobre Felipe Coimbra – Médico cirurgião oncológico referência nacional e mundial em câncer abdominal, Felipe José Fernández Coimbra se graduou em Medicina pela Universidade Federal do Pará, fez Residência Médica em Cirurgia Geral na Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e em Cirurgia Oncológica no A.C.Camargo Cancer Center, em São Paulo. Atualmente é secretário-geral da Sociedade Mundial de Cirurgia Oncológica (WSSO), diretor do Instituto Integra e líder do Centro de Referência de Tumores do Aparelho Digestivo Alto do A.C.Camargo. Presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncologia no biênio 2015-2017 e foi o primeiro brasileiro a presidir a Americas Hepato-Pancreato-Biliary Association (AHPBA), em 2019/2020. Faz parte do comitê científico internacional da International Hepato Pancreato Biliary Association (IHPBA) e é representante internacional da Society of Surgical Oncology Americana (SSO).

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