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Venda de medicamentos cresce em Minas e nova lei abre espaço para supermercados, mas levanta alerta sobre fiscalização
Por Luciana de Oliveira Archete
Publicado em 27/03/2026 16:00
Notícias Gerais

O consumo de medicamentos em Minas Gerais segue em alta e deve continuar crescendo em 2026, impulsionado pelo aumento da demanda e pelo reajuste anual de preços previsto para abril.

De acordo com levantamento da IPC Maps, os mineiros gastaram cerca de R$ 26,5 bilhões com remédios em 2025, um avanço de mais de 11% em relação ao ano anterior. O estado é o segundo maior consumidor do país, atrás apenas de São Paulo. No cenário nacional, os gastos chegaram a R$ 238,9 bilhões, também em crescimento.

O aumento do consumo está ligado a fatores como maior acesso a tratamentos, expansão dos medicamentos genéricos e melhoria das condições econômicas, que permitem que mais pessoas adquiram remédios regularmente. Além disso, o mercado já se prepara para o reajuste anual autorizado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), o que costuma antecipar compras e pressionar ainda mais a demanda.

Nova lei muda o mercado

Nesse contexto de crescimento, uma mudança relevante promete transformar o setor: a sanção da Lei nº 15.357/2026, que autoriza a instalação de farmácias dentro de supermercados.

A nova regra permite que esses estabelecimentos passem a operar pontos de venda de medicamentos, desde que cumpram as mesmas exigências das farmácias tradicionais — como a presença obrigatória de farmacêutico, controle sanitário e espaços delimitados para a venda dos produtos.

A expectativa do setor supermercadista é ampliar o acesso da população a medicamentos e aumentar a concorrência, o que pode contribuir para redução de preços e maior conveniência para o consumidor.

Crescimento com riscos estruturais

Apesar dos possíveis benefícios, especialistas apontam que a expansão desse modelo pode trazer desafios importantes, especialmente relacionados à fiscalização e ao controle sanitário.

Um dos principais alertas é o risco de um “vazio de fiscalização”, sobretudo em cidades menores. Nesses locais, a capacidade de vigilância sanitária tende a ser mais limitada, o que pode comprometer o cumprimento rigoroso das normas exigidas para a venda de medicamentos.

Além disso, o aumento no número de pontos de venda pode sobrecarregar os órgãos reguladores, dificultando o acompanhamento adequado de milhares de novas unidades que passarão a comercializar produtos sensíveis à saúde pública.

Pressão comercial e uso inadequado

Outro ponto de preocupação está no ambiente de consumo dos supermercados. Diferentemente das farmácias, onde a compra tende a ser mais direcionada, esses espaços estimulam decisões rápidas e impulsivas.

Especialistas alertam que essa lógica pode incentivar a compra desnecessária de medicamentos, ampliando práticas de automedicação — um problema já recorrente no Brasil.

Há também o receio de que a lógica comercial prevaleça sobre a orientação técnica, reduzindo o papel do farmacêutico e transformando o medicamento em mais um produto de prateleira, ainda que a legislação tente evitar esse cenário.

Impacto no setor farmacêutico

A mudança também deve alterar a dinâmica concorrencial. Grandes redes de supermercados, com alto fluxo de clientes, podem ganhar vantagem competitiva significativa em relação às farmácias independentes.

Parte das compras — especialmente de medicamentos sem prescrição — pode migrar para esses novos pontos de venda, pressionando pequenos negócios e acelerando a concentração do mercado.

O que pode acontecer no futuro

A combinação entre aumento do consumo, ampliação dos canais de venda e possíveis falhas de fiscalização cria um cenário de atenção para os próximos anos.

Entre os principais riscos apontados estão:

  • dificuldade de controle sanitário em larga escala
  • aumento da automedicação
  • enfraquecimento do papel técnico do farmacêutico
  • maior concentração de mercado
  • tratamento do medicamento como produto comum de varejo

Embora a nova legislação tenha sido estruturada para manter regras rígidas, especialistas avaliam que o sucesso do modelo dependerá diretamente da capacidade do Estado de fiscalizar e garantir que as normas sejam cumpridas na prática.

 

Sem esse controle, a ampliação do acesso pode vir acompanhada de efeitos adversos para a saúde pública.

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