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Ficção aborda as marcas provocadas pela pobreza e a justiça negada na ditadura militar
Em "Entre Montanhas e Predições", Felipe de Caux entrelaça profecias com estruturas sociais que invisibilizam classes sociais no Brasil
Publicado em 12/02/2026 11:30
Notícias Gerais

Marcada desde o nascimento por um presságio na forma de uma mancha no rosto e posteriormente por previsões de uma cartomante, Madalena cresce sob a sombra de destinos trágicos. É nessa atmosfera que Felipe de Caux, em Entre Montanhas e Prediçõesexpõe as diferenças entre as classes sociais, revelando desigualdades e violências estruturais que dialogam com o silenciamento histórico das camadas mais vulneráveis da sociedade. Além disso, o autor retrata a ferida aberta deixada pelo regime militar no Brasil. 

Ambientada no interior de Minas Gerais, a trama começa com a protagonista já idosa em um asilo, onde sua história é reconstruída com base nos relatos que divide com seu médico. A partir dessas confidências, o leitor é conduzido ao passado, quando as antigas profecias começaram a se cumprir: o marido sucumbiu ao alcoolismo; umas das crianças faleceu ainda bebê; uma filha foi destruída pelo ciúme e pelo machismo; um filho foi vítima de homofobia; e outro consumido pela melancolia.  

Entre todas as dores e perdas, o desaparecimento do jovem promissor Francisco, levado pelos militares durante a ditadura, é a ferida que a assombrou por anos, acompanhando-a até o envelhecer. Tomada por esse vazio, Madalena transformou seu propósito em uma busca interminável pelo filho perdido e por algum traço de justiça – esta que raramente alcança  as famílias pobres e invisibilizadas. Cada destino, embora atravessado pelo simbolismo do presságio, revela a dureza das estruturas sociais que sufocam quem vive sem voz. 

Nestes anos vieram também as esperanças. A Comissão da Verdade foi criada para investigar os crimes da época da ditadura militar, assim como as mortes e desaparecidos. Parecia que os esquecidos seriam finalmente lembrados, e por um tempo achou que sua espera chegaria ao fim; no entanto, apesar de reconhecerem os crimes, nada mudou, e ninguém foi punido. Os desaparecidos continuaram perdidos, ou para ser mais exato, enterrados. (Entre montanhas e prediçõesp. 222) 

Ao transformar sofrimentos reais em matéria literária, Felipe de Caux constrói um romance que denuncia, emociona e resgata aquilo que a história oficial tantas vezes tentou apagar. Na personagem central, o leitor encontra não apenas uma mulher marcada por fatalidades, mas o espelho de uma população que aprendeu a enfrentar perdas, cultivar esperança e reinventar a própria resistência diante da tragédia. 

Com forte carga imagética, poética e sensível, a obra entrelaça o cotidiano ao extraordinário para revelar a complexa realidade latino-americana. Os elementos mágicos da trama surgem como extensões naturais da vida, permitindo expor injustiças, opressões e crenças populares de um modo que a narrativa realista, sozinha, não alcançaria. Assim, a ficção se torna uma ferramenta potente de memória e verdade. 

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